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Opinião

Violência dos fundamentalistas religiosos nos faz admirar a coerência do Diabo

Este artigo desvenda as complexas camadas da natureza humana, explorando a relação entre violência, religião e cultura na sociedade brasileira atual.Este artigo desvenda as complexas camadas da natureza humana, explorando a relação entre violência, religião e cultura na sociedade brasileira atual.
Horacio Villalobos
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EPA
"Arch of Hysteria". Louise Bourgeois.
Vinícius Sgarbe
30/11/2023 20:02

<span class="abre-texto">Desde que nos comprometemos de que a agressividade</span> seria o assunto da semana que vem nesta coluna, o tema passou a nos importunar de várias maneiras, qual seja, a mais inadequada, um sonho em que nos afogávamos dentro de uma roupa de astronauta quando estávamos prestes a atingir, nadando do fundo para o céu, a superfície de um lago que se congelou repentinamente.

Já paramos de fumar e tivemos um resfriado daqueles desde que assumimos o compromisso, e o texto mesmo, poxa, cada vez mais laborioso. É perigoso argumentar que nós, humanos, não podemos prescindir da violência, e que temos de encontrar um lugar para ela, uma vez que ela matará de toda forma (pretendemos voltar ao sonho do afogamento). Comparamos comportamentos homicidas a proposições do fundamentalismo religioso, pelas quais os indivíduos matam material e espiritualmente.

O mais fácil seria recorrer a definições filosóficas, pelo menos para um sobrevoo. Isto é, repetir e reforçar o que é o estado da arte, reconvencionar as convenções. Outra saída seria a oferta de dicas para evitar o soco na mesa, jeitinhos de contornar a explosão, mas isso demanda que não tenhamos ódio e nojo de recomendações comportamentais, o que temos em abundância. De toda sorte, não achamos que nada assim sirva ao propósito que se instala em nós.

Sentimos muito por nossa resistência em abandonar distinções obsoletas e nocivas de nossa cultura.

Embora, repetimos pela primeira vez, não possamos renunciar à violência, podemos, nesta altura do campeonato, pelo menos sugerir a pensamentos selvagens que se domestiquem. Mas nesta altura do campeonato estamos faz tempo, pelo menos desde que nos proibimos de matar, de comer carne humana, e de transar com nossas mamães e com nossos papais.

O assassinato, o canibalismo, e o incesto são, ou deveriam ser, do ponto de vista prático, totalmente superados. Mas essa não é a compreensão do pessoal religioso (no péssimo sentido). Nas palavras do pesquisador de psicanálise David Adams, os fundamentalistas religiosos são os mais infantis dos infantis, pelo desejo que têm que seu deus destrua a todos nós que não toleramos a burrice deles. No Brasil, essa gente já mostrou o que está disposta a fazer pelo mal dos outros, quando de suas escolhas eleitorais.

Há milênios, somos feridos por seus deuses da guerra.

Essas deidades rancorosas, não raramente encarnadas em soberanos eleitos pela massa, não passam, todavia, de representações locais, de projeções limitadas. Por maior que seja um grupo étnico ou religioso, ele não pode representar a totalidade de nossa espécie sobre a face da Terra. Nem mesmo o Senhor dos Exércitos de Anjos é exatamente senhor sobre todos, por mais incomodativa que essa verdade seja.

Gostaríamos de informar, com a clareza de uma longa linguagem de profetas, artistas e filósofos, que não importa que nome seja dado àquilo que é tomado por única verdade, isso é exatamente o que define uma religião.

Nesse passo, por mais completinha que possa ser uma posição em favor do assassinato (pena de morte, guerra) ela ainda assim é tão limitada e anã quanto qualquer outra posição humana. Ou vocês ainda caem na história de que deus mandou matar? – risos.

Hoje mais cedo, durante uma supervisão improvisada, Maku de Almeida saiu com esta: "admiro a coerência do Diabo. Ele rompeu com o grupo dele, e foi fazer o que queria. O duro é quem se apresenta como Deus e age como o Diabo. O Diabo se apresenta como Diabo e age como Diabo".

É possível que experimentemos um desconforto profundo ao nos depararmos com a necessidade de uma cegueira deliberada para manter a coerência de nossas concepções de mundo.

Se fôssemos suficientemente ousados, e somos, poderíamos duvidar, e duvidamos, que a religião seja somente um docinho de coco.

Agora, religioso fascistinha, sente aqui do nosso lado, deixe eu encostar meu corpo quente bem perto do seu, minha mão grande sobre sua coxa, enquanto olho dentro dos seus olhos arregaçados de hormônio.

— Por que colocar na conta de um deus amoroso e perdoador, como é Nosso Senhor Jesus Cristo, os danos que você e seu grupinho de merda causam ao mundo? Não lhe parece mais coerente que a assinatura dos genocídios e guerras coincida com seu nome repugnante do que com o nome de um deus? Na sua idade eu teria vergonha.

Há algumas semanas, quando defendemos nossa paráfrase da literatura de Freud em uma dissertação, além de nossa psicanálise sobre a participação de igrejas na política brasileira contemporânea, começamos por uma ressalva requerida por nosso carinho.

Pouca coisa pode ser mais ofensiva a um grupo fundamentalista que sua lateralização, que seja compreendido como apenas mais um grupo, e não como o único grupo verdadeiro. Nesse sentido, temos pouco para contribuir, mas temos um pouco para contribuir.

No filme de Steven Spielberg A.I. – Inteligência Artificial (2001), o robô humanoide David (Haley Joel Osment), atormentado até os ossos pela rivalidade que tem com o irmão, descobre-se ordinário. Ele encontra réplicas idênticas a ele e, enquanto as destrói com um taco de beisebol, grita algo como "eu sou único! Eu sou único!". É uma cena perturbadora. No gancho do tio Spielberg, recorremos, estranha e espirituosamente, à Bíblia.

Na sabedoria de Salomão, em Provérbios, logo no primeiro capítulo: "Ignorantes! Até quando vocês terão prazer na ignorância? Cínicos! Até quando alimentarão seu cinismo?". Gostamos da maneira direta como o rei trata da coisa. Hoje, provavelmente estaria cancelado.

Mas não vamos perder a centralidade daquela ressalva: uma experiência transcendental é pessoal e indivisível. Nesse sentido, as práticas pouco ou nada importam, se na Missa ou no cemitério, se no culto ou na loja. Afinal, o indivíduo que transcendeu chegou à glória da paz com os outros. Na nossa concepção (e também na de Freud), esse sentimento oceânico não está em questão. O que está, entretanto, é que possamos, às vezes por um instante, esquecer de dar o nome certo às coisas.

Enquanto não pudermos chamar o ignorante pelo nome dele, vamos nos submeter ao afogamento. Não à toa, O homem revoltado de Albert Camus pode se resumir mais ou menos assim: é melhor ter vontade de matar o outro do que ter vontade de matar a si mesmo.

Deixemos ao Papa, cujo moral está decaído entre católicos violentos que dele esperam rebelião, tal qual Judas esperava de Cristo, as mensagens de amor irrestrito. Diante da ameaça de morte que nos fazem, que pelo menos possamos morrer em pé.

Última atualização
5/1/2024 14:48
Vinícius Sgarbe
Jornalista, analista transacional, e pesquisador.

'Memórias de chá', novo livro do CIS, ganha vida com homenagens e relatos

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Jane Hir
20/4/2024 9:27

Já faz algum tempo (acredito que esse seja um presente do envelhecimento) que venho aprendendo a saborear os momentos vividos. É como se relesse com atenção uma parte da história que ainda estou construindo.

Há duas semanas, escrevi sobre a apresentação do livro Memórias de chá, escrito pelas educandas do Centro de Integração Social (CIS). Nesse evento, uma cena se destaca entre as minhas lembranças: a diretora da unidade presta uma linda homenagem ao seu pai para representar, naquele momento, o leitor.

Pateta no trânsito: reflexões sobre raiva e autocontrole

Controlar o 'Pateta interno' pode transformar sua condução

Carolina Schmitz da Silva
20/4/2024 9:08

Na minha infância, lembro-me de assistir ao filme do Pateta no trânsito, uma animação da Disney na qual ele se transforma em uma pessoa raivosa ao dirigir. Aquela mudança de humor ao entrar em um carro me impressionava profundamente.

Agora, como adulta, vejo-me controlando meu Pateta interno e, em alguns momentos, percebo sua força crescer enquanto dirijo. Tendo consciência de quando ele domina, reconheço quão inadequado ele é.

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