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Opinião

Uma proposta revolucionária, mas não inovadora: a gentileza

Gentileza na comunicação: a arte de ouvir e falar com empatia. Aprender a sintonizar-se com o outro gera conexões, economiza tempo e fortalece relacionamentos.Gentileza na comunicação: a arte de ouvir e falar com empatia. Aprender a sintonizar-se com o outro gera conexões, economiza tempo e fortalece relacionamentos.
Annie Spratt
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Unsplash
Maku de Almeida
3/9/2023 15:06

<span class="abre-texto">Transitando pela vida</span>, de um fenômeno humano a outro, meu olhar e minha atenção são atraídos para a coreografia dos relacionamentos. Suas complexidades, suas múltiplas dimensões. Uma delas parece-me especialmente central nos contatos humanos e bem por isso item muito lembrado nas análises das convivências. A maneira como as pessoas se comunicam ou deixam de se comunicar altera todo o processo vital que segue aquele momento, dure o tempo que durar.

Imagino a jornada de convivência como uma estrada na qual belezas e obstáculos se alternam. Conviver e contemplar pode ser a aventura de uma vida.

No entanto, é muito comum que os caminhantes sigam juntos por um tempo até que um equívoco no diálogo inicia um movimento divergente que pode escalar até a ruptura. Cada um pode iniciar sua caminhada solitária ao tomar um desvio, ou pior, seguem juntos em silêncio, uma espécie sofisticada de morte em vida. Sem expressar pensamentos, sentimentos ou necessidades e expectativas, estarão cada um à beira de variados colapsos, à busca de alianças com outras pessoas. Pois como humanos precisamos de contato, presença, validação, valorização, atenção, respostas!

Na minha percepção, diálogo não são só as palavras. São gestos, expressões, olhares – qualquer forma de contato. As palavras complementam ou complexificam o contato. A raposa, personagem do magnifico livro O pequeno príncipe, de Saint Exupéry, orienta o menino quanto ao caminho do “cativar”:

“Se tu queres um amigo, cativa-me! Que é preciso fazer? perguntou o principezinho. É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto”.

E espia só o mundo onde estamos! Correria, pressa, olhar grudado nos pequenos retângulos espelhados, atenção espalhada entre o que aconteceu e o que precisa acontecer já, agora, rápido. De vez em quando penso que dentre as inúmeras fantasias que envolvem e sedam os seres humanos, há uma relacionada ao tempo: que um dia, sabe lá quando, poderei prestar atenção aos meus companheiros de jornada, um dia poderei ouvir e perceber as pessoas à minha volta; um dia prestarei atenção em mim mesma e saberei quem sou e do que preciso.

E nestes redemoinhos enlouquecedores se perdem propósitos, projetos, pessoas, companhias e países.

O que fazer, afinal de contas?

Tenho uma proposta revolucionária, mas não inovadora. Gentileza é seu nome.

E não é algo que vem junto com o pacote humano, como acessório. Gentileza é aprendida. É repertório capturado pela criança ao observar e interagir com os adultos a sua volta.

Gentileza ao falar e gentileza ao ouvir supõem qualidade de presença. Supõem sintonização com as pessoas. Sintonizar é ajustar o canal, identificar e conectar o mundo de significados do outro e abrir as conexões de escuta.

Gentileza é expressada pela conexão empática, pelo olhar validador, por palavras e gestos que incluem e reconhecem as pessoas.

Gentileza se origina em uma decisão, em uma deliberação consciente pelo cuidado consigo, com o outro e pelo fluxo de comunicação.

Falar com gentileza é ter consciência do impacto potencial causado no outro por palavras, gestos, expressões. E é, de fato, o entendimento de algo relativamente simples: afinal de contas, o que desejo que o outro entenda?  

Falar e escutar com gentileza, além de gerar economia do recurso sem reposição que é o tempo pode: fortalecer relacionamentos, viabilizar resultados, reduzir o estresse de ambientes e situações difíceis (a gentileza pode ser o canal de resposta rápida a crises!).

Falar e escutar com gentileza também é o que pode fortalecer o desenvolvimento das pessoas, nos seus diferentes ambientes. Comunidade familiar, empresas, escolas. A gentileza pode abrir espaços de compreensão e de acolhimento dos pensamentos complementares ou contraditórios.

Pequenos gestos gentis pode ser o início. Já pensou se, ao invés destes debates absurdos e violentos a que assistimos de vez em quando, as autoridades escolhessem um diálogo emocionalmente educado e juntos elaborassem projetos para a população? Já pensou se as ofensas e as falas violentas fossem substituídas por animados diálogos gentis e propositivos?

Ah, e antes que me esqueça: ser gentil não significa ser fraco ou condescendente, ou submisso, ou venal.

A gentileza é plantada na coragem e na decisão. Coragem de ouvir a si, entender seus motivos e coragem para expressar suas necessidades e expectativas gentilmente.

Como escrevi. Revolucionário, mas não muito inovador. Minha Vó Nenê, há tempos, já nos ensinava a gentileza: sendo gentil.

Última atualização
29/10/2023 19:42
Maku de Almeida
Analista transacional. Escreve aos domingos.

'Memórias de chá', novo livro do CIS, ganha vida com homenagens e relatos

'Memórias de chá', novo livro do CIS, ganha vida com homenagens e relatos

Jane Hir
20/4/2024 9:27

Já faz algum tempo (acredito que esse seja um presente do envelhecimento) que venho aprendendo a saborear os momentos vividos. É como se relesse com atenção uma parte da história que ainda estou construindo.

Há duas semanas, escrevi sobre a apresentação do livro Memórias de chá, escrito pelas educandas do Centro de Integração Social (CIS). Nesse evento, uma cena se destaca entre as minhas lembranças: a diretora da unidade presta uma linda homenagem ao seu pai para representar, naquele momento, o leitor.

Pateta no trânsito: reflexões sobre raiva e autocontrole

Controlar o 'Pateta interno' pode transformar sua condução

Carolina Schmitz da Silva
20/4/2024 9:08

Na minha infância, lembro-me de assistir ao filme do Pateta no trânsito, uma animação da Disney na qual ele se transforma em uma pessoa raivosa ao dirigir. Aquela mudança de humor ao entrar em um carro me impressionava profundamente.

Agora, como adulta, vejo-me controlando meu Pateta interno e, em alguns momentos, percebo sua força crescer enquanto dirijo. Tendo consciência de quando ele domina, reconheço quão inadequado ele é.

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