Corrida para a Prefeitura de Curitiba

Opinião

Sentimento de superioridade: esse grande dragão à espreita sob o manto das guerras

Artigo introspectivo que explora a dinâmica entre vaidade, medo, e orgulho, e como a humildade pode ser a solução para conflitos internos.Artigo introspectivo que explora a dinâmica entre vaidade, medo, e orgulho, e como a humildade pode ser a solução para conflitos internos.
Arte Cidade Capital
/
DALL·E 3
Marta Moneo
22/11/2023 10:54

<span class="abre-texto">A princípio, o homem vive uma vida exterior</span> e, mais tarde, uma interior; a noção de efeito precede, na evolução da mente, a noção de causa interior desse mesmo efeito (citando Fernando Pessoa) – porque, e é sempre importante lembrar, projetamos para fora e para o outro o que negamos em nós desde bebês.

O ser humano prefere ser exaltado pelo que não é, a ser tido em menor conta por aquilo que é. É a vaidade em ação, buscando infantilmente despertar a admiração e mesmo a inveja nos outros para, assim, elevar a própria autoestima – por conta da dependência de segurança e reconhecimento externos – alimentando um momentâneo e ilusório estado de prazer.

Esse sentimento, caracterizado pela pretensão de superioridade sobre as demais pessoas, constitui a raiz mais profunda do orgulho – raiz cuja semente é o medo.
É preciso ao adulto de hoje reconhecer o conflito que ocorre em seu mundo interno. Uma guerra que se trava de forma interna, mas que ameaça transbordar os limites emocionais do eu psíquico e manifestar-se no corpo físico inclusive.
Naturalmente, o conflito entre um medo e um desejo. Porque há uma ordem de conflitos capaz de alavancar drásticas perturbações na organização mental, exatamente porque o medo se faz filho do desejo... e assume a paternidade do orgulho.

Apesar do impulso que nos impele à ação para a consumação do desejo, aquilo que pode realmente apaziguar o ego em conflito se acha na dimensão da humildade em reconhecer a existência desse desejo e negociar consigo.

O reconhecimento do querer é o que nos induz a pensar; e, não é novidade o fato de que isso coincide com a capacidade de adiar a ação. Ainda assim, o reconhecer é assustador – isso por se tratar de um movimento interno que leva a abrir mão da satisfação do prazer que estaria na efetivação da ação.

A psicanálise ensina com muita clareza que pensar sobre as emoções diante do que causa frustração leva, queira ou não, ao reduto da realidade. E que pensar nos possibilita um desistir da satisfação imediata – que, apesar de ser prazerosa, é exatamente a responsável pelo conflito.
A proposta de considerar a dimensão do lado desconhecido da mente deve partir de certa experiência de humildade, na consideração da ignorância presente nas dores da alma e no conteúdo arcaico do inconsciente do homem.
Humildade é um termo advindo do latim húmus, cujo significado é terra fértil, apta a receber e frutificar sementes por se fomentar na riqueza dos bons nutrientes.

Entender que no cerne da humildade – contrariamente ao fosso do medo e das raízes doentias do orgulho – residem: a liberdade de sermos quem somos; a possibilidade de oferecer-nos ao novo, trazido pelo reduto social, com um olhar mais afetivo e articulado na ponderação ante aos desafios do cotidiano; o discernimento sobre a imperfeição que nos habita sem que a comparação se instale gerando angústia, menos valia e/ou revolta; e, a oportunidade de alcançarmos a felicidade possível, tanto no campo da realidade quase sempre frustrante, como na seara dos mal-entendidos resultantes da linguagem (verbal ou não verbal) nas relações humanas.

Buscar o enfrentamento dessas tendências basais mergulhadas ainda em nosso inconsciente primitivo é, a meu ver, o necessário percurso a ser trilhado, especialmente nesses tempos em que entidades políticas – reconhecidas como tal ou não – guerreiam em nome de reconhecimento de suas pretensas e relativas verdades, em tristes estratégias de busca por segurança (territorial, patrimonial, social, religiosa etc.), submetendo irmãos em humanidade ao luto, à dor, à humilhação, a traumas e ao desconsolo – homens, mulheres, idosos e crianças em busca de um chão, de um mínimo de amor e sobrevida, marchando sem aonde.

Sob o manto das guerras, o sentimento de superioridade aloja-se no grande dragão da vaidade – em exacerbada mais valia a validar o fogo insano da barbárie – que sobrevoa céus diversos, ignorando quem amarga a humildade espera por um chão mais fértil, nutrido pela paz externa e interna a cada um.

Última atualização
19/12/2023 11:42
Marta Moneo
Pós-graduada em A Psicanálise do Século XXI, pela Fundação Armando Alvares Penteado (Faap); Pós-graduada em psicanálise, pela Faculdade Álvares de Azevedo (Faatesp); Formação em psicanálise, pelo Centro de Formação em Psicanálise Clínica Illumen, com sede em São Paulo desde 2010. Outras formações acadêmicas: graduação em administração de empresas, pela Faculdade Ibero-Americana; graduação em letras, pelo Instituto Municipal de Ensino Superior (Imes) Catanduva; Leciona psicanálise, atua como analista didática e supervisora na preparação psicanalítica de alunos do Illumen. Atua na clínica psicanalítica desde 2017, com maior direcionamento ao público infanto-juvenil e adolescente.

'Memórias de chá', novo livro do CIS, ganha vida com homenagens e relatos

'Memórias de chá', novo livro do CIS, ganha vida com homenagens e relatos

Jane Hir
20/4/2024 9:27

Já faz algum tempo (acredito que esse seja um presente do envelhecimento) que venho aprendendo a saborear os momentos vividos. É como se relesse com atenção uma parte da história que ainda estou construindo.

Há duas semanas, escrevi sobre a apresentação do livro Memórias de chá, escrito pelas educandas do Centro de Integração Social (CIS). Nesse evento, uma cena se destaca entre as minhas lembranças: a diretora da unidade presta uma linda homenagem ao seu pai para representar, naquele momento, o leitor.

Pateta no trânsito: reflexões sobre raiva e autocontrole

Controlar o 'Pateta interno' pode transformar sua condução

Carolina Schmitz da Silva
20/4/2024 9:08

Na minha infância, lembro-me de assistir ao filme do Pateta no trânsito, uma animação da Disney na qual ele se transforma em uma pessoa raivosa ao dirigir. Aquela mudança de humor ao entrar em um carro me impressionava profundamente.

Agora, como adulta, vejo-me controlando meu Pateta interno e, em alguns momentos, percebo sua força crescer enquanto dirijo. Tendo consciência de quando ele domina, reconheço quão inadequado ele é.

Cidade Capital é um projeto de jornalismo.

47.078.846/0001-08

secretaria@cidade.capital