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Opinião

Preparar panquecas e viver é uma receita de amor e paciência

Receita de panquecas e bolo de abóbora que trazem memórias afetivas, ensinando sobre a vida com carinho e sabor.Receita de panquecas e bolo de abóbora que trazem memórias afetivas, ensinando sobre a vida com carinho e sabor.
Arte Cidade Capital
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Adobe Firefly
Jane Hir

<span class="abre-texto">Algumas comidas são marcadas</span> pelo afeto. Tenho memória afetiva de muitas e entre elas está a panqueca. Na minha infância, que já transcorreu há muito tempo, a mágica das rodelas de massa dourada sendo viradas em um gesto preciso era realizada pela minha avó.

Em uma época de poucas variedades alimentícias, pelo menos para uma família numerosa como a nossa e mantida por um pai operário, a panqueca recheada de doce de leite feito em casa ou apenas polvilhada com açúcar e canela, assumia ares de requinte.

A gente ficava meio de longe olhando a avó misturar os ingredientes com a colher de pau. Em seguida, ela untava a frigideira velha e derramava a mistura com cuidado, bem devagar com um movimento ritmado das mãos para que a massa se espalhasse bem fininha tomando conta suavemente da superfície untada.

E depois de assados os círculos de massa bem fina, uma outra etapa começava: ela colocava o recheio e enrolava cuidadosamente fazendo um rolo delicado. Em seguida, com todos os rolinhos arrumados na travessa de barro, era a hora da chuva moderada de açúcar e canela formando desenhos inusitados.

Os rolinhos de massa chegavam às nossas mãos ainda quentinhos e a gente ia comendo devagar pra não acabar depressa. Era uma experiência completa de sentidos: o cheiro doce da canela, o dourado que se mostrava em desenhos na massa enrolada, a textura macia e morna em nossas mãos, o sabor esperado na boca...

Talvez tenha sido essa memória guardada no baú da infância que me fez escolher esse prato pra fazer junto com a amiga que convidei para uma tarde na cozinha. Tudo bem que houve um certo aprimoramento na receita escolhida: resolvemos fazer panquecas de massa de ora-pro-nóbis e de beterraba, recheadas de carne moída.

A adição dos vegetais e a escolha de outra farinha sem glúten exigiu alguns ajustes tanto nas medidas quanto no modo de fazer. A culinária requer mais experiência que exatidão nas medidas ou sofisticação. E a nossa tarde transcorreu entre uma permanente troca de impressões regada com risos e cerveja bem gelada.

Descobrimos encantadas que fazer panquecas se assemelha em muito a viver: olhe, sinta a textura, aguarde. Não tenha medo! Deixe aquecer bem a frigideira. Sinta o gosto! Não tem problema se errar. Se não der certo a gente tenta diferente.

Ah!, a massa tá quebradiça! Precisa acrescentar algo que dê liga. Quem sabe óleo de coco! (que na vida pode ser substituído por afeto).

A segunda receita foi bolo de abóbora com coco na forma redonda com um buraco no centro (igualzinha à forma da avó), outra peça pregada pela minha criança interior que teima em mandar em mim!

Fazer bolo também nos ensina sobre a vida. Antes de tudo, é preciso aquecer o forno, ajustar a medida do calor para que o bolo cresça e fique fofinho. Quando o tempo prescrito transcorre, é necessário enfiar um palito pra saber se o bolo está pronto. Só quando o palito sai sequinho é que a missão se encerra.

Ou seja, na vida, é preciso cuidado na relação, a acolhida pode ser representada pelo calor do forno que possibilita o crescimento e o palito sequinho é a constatação feliz de que o outro está pronto para seguir sem a nossa ajuda.

E assim, entre panquecas e bolos aprendemos um pouco mais sobre nós mesmas.

Última atualização
19/5/2024 16:08
Jane Hir
Mestra em Educação (UFPR); Professora de língua portuguesa; Especialista em Educação de Jovens e Adultos; Facilitadora de Práticas Restaurativas — Eseje (2017) e SCJR/Coonozco (2018); Especialista em Práticas Restaurativas, com enfoque em Direitos Humanos (PUCPR); Especialista em Neurociências, Psicologia Positiva e Mindfulness (PUCPR).

Gravidez entre vítimas de estupro pode aumentar com PL do aborto

Gravidez entre vítimas de estupro pode aumentar com PL do aborto

Redação Cidade Capital
14/6/2024 10:10

Entre 1º de janeiro e 13 de maio de 2024, foram feitas 7.887 denúncias de estupro de vulnerável ao serviço Disque Direitos Humanos (Disque 100). A média foi de cerca de 60 casos por dia ou dois registros por hora, segundo a Agência Brasil.

Esses números podem piorar com a aprovação do Projeto de Lei 1.904/2024 e também aumentar os casos de gravidez indesejável entre crianças e adolescentes, especialmente meninas vítimas de estupro em situação de vulnerabilidade social. O alerta é de movimentos sociais e instituições que repudiam a proposta de alteração do Código Penal Brasileiro.

Dia mundial do doador de sangue: o que é preciso para doar

Dia mundial do doador de sangue: o que é preciso para doar

Redação Cidade Capital
14/6/2024 9:31

A auxiliar administrativa Larissa Régis, de 24 anos, doou sangue pela primeira vez aos 18 anos. “Fui motivada pelo desejo de ajudar as pessoas e fazer a diferença na vida do próximo. A ideia de que uma simples ação poderia salvar vidas foi um grande incentivo para mim”, diz Larissa.

Desde então, a jovem faz pelo menos uma doação de sangue por ano e planeja se tornar uma doadora regular para ajudar a manter os estoques em dia. “Acho muito importante manter esse compromisso. A ideia de ter uma carteirinha de doador é algo que me atrai, já que facilita o acompanhamento e reforça minha responsabilidade com a causa”, explica.

Opinião

Preparar panquecas e viver é uma receita de amor e paciência

Receita de panquecas e bolo de abóbora que trazem memórias afetivas, ensinando sobre a vida com carinho e sabor.Receita de panquecas e bolo de abóbora que trazem memórias afetivas, ensinando sobre a vida com carinho e sabor.
Arte Cidade Capital
/
Adobe Firefly
Jane Hir
Mestra em Educação (UFPR); Professora de língua portuguesa; Especialista em Educação de Jovens e Adultos; Facilitadora de Práticas Restaurativas — Eseje (2017) e SCJR/Coonozco (2018); Especialista em Práticas Restaurativas, com enfoque em Direitos Humanos (PUCPR); Especialista em Neurociências, Psicologia Positiva e Mindfulness (PUCPR).
19/5/2024 16:08
Jane Hir

<span class="abre-texto">Algumas comidas são marcadas</span> pelo afeto. Tenho memória afetiva de muitas e entre elas está a panqueca. Na minha infância, que já transcorreu há muito tempo, a mágica das rodelas de massa dourada sendo viradas em um gesto preciso era realizada pela minha avó.

Em uma época de poucas variedades alimentícias, pelo menos para uma família numerosa como a nossa e mantida por um pai operário, a panqueca recheada de doce de leite feito em casa ou apenas polvilhada com açúcar e canela, assumia ares de requinte.

A gente ficava meio de longe olhando a avó misturar os ingredientes com a colher de pau. Em seguida, ela untava a frigideira velha e derramava a mistura com cuidado, bem devagar com um movimento ritmado das mãos para que a massa se espalhasse bem fininha tomando conta suavemente da superfície untada.

E depois de assados os círculos de massa bem fina, uma outra etapa começava: ela colocava o recheio e enrolava cuidadosamente fazendo um rolo delicado. Em seguida, com todos os rolinhos arrumados na travessa de barro, era a hora da chuva moderada de açúcar e canela formando desenhos inusitados.

Os rolinhos de massa chegavam às nossas mãos ainda quentinhos e a gente ia comendo devagar pra não acabar depressa. Era uma experiência completa de sentidos: o cheiro doce da canela, o dourado que se mostrava em desenhos na massa enrolada, a textura macia e morna em nossas mãos, o sabor esperado na boca...

Talvez tenha sido essa memória guardada no baú da infância que me fez escolher esse prato pra fazer junto com a amiga que convidei para uma tarde na cozinha. Tudo bem que houve um certo aprimoramento na receita escolhida: resolvemos fazer panquecas de massa de ora-pro-nóbis e de beterraba, recheadas de carne moída.

A adição dos vegetais e a escolha de outra farinha sem glúten exigiu alguns ajustes tanto nas medidas quanto no modo de fazer. A culinária requer mais experiência que exatidão nas medidas ou sofisticação. E a nossa tarde transcorreu entre uma permanente troca de impressões regada com risos e cerveja bem gelada.

Descobrimos encantadas que fazer panquecas se assemelha em muito a viver: olhe, sinta a textura, aguarde. Não tenha medo! Deixe aquecer bem a frigideira. Sinta o gosto! Não tem problema se errar. Se não der certo a gente tenta diferente.

Ah!, a massa tá quebradiça! Precisa acrescentar algo que dê liga. Quem sabe óleo de coco! (que na vida pode ser substituído por afeto).

A segunda receita foi bolo de abóbora com coco na forma redonda com um buraco no centro (igualzinha à forma da avó), outra peça pregada pela minha criança interior que teima em mandar em mim!

Fazer bolo também nos ensina sobre a vida. Antes de tudo, é preciso aquecer o forno, ajustar a medida do calor para que o bolo cresça e fique fofinho. Quando o tempo prescrito transcorre, é necessário enfiar um palito pra saber se o bolo está pronto. Só quando o palito sai sequinho é que a missão se encerra.

Ou seja, na vida, é preciso cuidado na relação, a acolhida pode ser representada pelo calor do forno que possibilita o crescimento e o palito sequinho é a constatação feliz de que o outro está pronto para seguir sem a nossa ajuda.

E assim, entre panquecas e bolos aprendemos um pouco mais sobre nós mesmas.

Jane Hir
Mestra em Educação (UFPR); Professora de língua portuguesa; Especialista em Educação de Jovens e Adultos; Facilitadora de Práticas Restaurativas — Eseje (2017) e SCJR/Coonozco (2018); Especialista em Práticas Restaurativas, com enfoque em Direitos Humanos (PUCPR); Especialista em Neurociências, Psicologia Positiva e Mindfulness (PUCPR).
Última atualização
19/5/2024 16:08

Gravidez entre vítimas de estupro pode aumentar com PL do aborto

Redação Cidade Capital
14/6/2024 10:10

Entre 1º de janeiro e 13 de maio de 2024, foram feitas 7.887 denúncias de estupro de vulnerável ao serviço Disque Direitos Humanos (Disque 100). A média foi de cerca de 60 casos por dia ou dois registros por hora, segundo a Agência Brasil.

Esses números podem piorar com a aprovação do Projeto de Lei 1.904/2024 e também aumentar os casos de gravidez indesejável entre crianças e adolescentes, especialmente meninas vítimas de estupro em situação de vulnerabilidade social. O alerta é de movimentos sociais e instituições que repudiam a proposta de alteração do Código Penal Brasileiro.

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Redação Cidade Capital
14/6/2024 9:31

A auxiliar administrativa Larissa Régis, de 24 anos, doou sangue pela primeira vez aos 18 anos. “Fui motivada pelo desejo de ajudar as pessoas e fazer a diferença na vida do próximo. A ideia de que uma simples ação poderia salvar vidas foi um grande incentivo para mim”, diz Larissa.

Desde então, a jovem faz pelo menos uma doação de sangue por ano e planeja se tornar uma doadora regular para ajudar a manter os estoques em dia. “Acho muito importante manter esse compromisso. A ideia de ter uma carteirinha de doador é algo que me atrai, já que facilita o acompanhamento e reforça minha responsabilidade com a causa”, explica.