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Opinião

O sinuoso percurso do auto-saber

A jornada de autoconhecimento e aceitação da própria esquisitice como elemento fundamental para a construção da identidade e do autoamor.A jornada de autoconhecimento e aceitação da própria esquisitice como elemento fundamental para a construção da identidade e do autoamor.
Arte Cidade Capital
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Marta Moneo
22/2/2024 10:40

<span class="abre-texto">Tomo como tema uma questão intrigante</span> com a qual cada um de nós tem de operar ao longo da vida: nossa esquisitice. E sei que versar sobre isso soa muito bizarro! A estranheza intrínseca do ser, contudo, é a responsável por nos denominar ao Outro, queira-se ou não.

Falo dessa tal singularidade a extravasar do dentro para o fora, de mim para algo além, e a repercutir interpretações no alheio. Somos lidos o tempo todo por olhares não pertencentes, estrangeiros... a despeito de nosso querer – o que quase sempre acirra o mal-estar diante do convívio – nesse eterno embate entre as enraizadas pulsões arcaicas e o regramento social, a nos cercar/cercear no vai-e-vem das relações. Por isso negociar o que de mim emerge, aquilo que na maioria das vezes eu sequer sei, com a impressão causada a terceiros, requer a todo tempo o regresso do Eu (passo a passo construído no compasso dado por discursos disjuntos) a um pensar ensimesmado.

Reflexão desafiadora cuja finalidade ao longo do percurso e do tempo é, em encontros, desencontros e reencontros, laçar o mais viável significante a me descortinar ao rastreio de sentido; tocar-me em essência para me apropriar de um suficiente auto saber, apto a me inspirar à prosperidade do autoamor.

Um aparte se faz importante: por mais que acredite me compreender, esse meu esquisito se agita diante de quem não é eu, pouco importando os aprendizados adquiridos nem as afirmativas sobre uma identidade legítima. É esse Um inusitado, hábil em operar em insegurança e medo ante o conceito e juízo de alguém, que imagino poderoso demais... e ele me faz sofrer! Isso porque, apesar da idade, minha juventude submersa ainda requer cuidados, nesse eterno transitar entre o universo infantil e o adultecer.

Representações falam em mim como de mim; as últimas, todavia, quase nunca atendem ao que se balbucia no íntimo. No subterrâneo inusitado da psique – ora usina do divino em potencial, ora vitrina ao bauzinho de Pandora – energias revezam-se a impulsionar, sob o rótulo de personalidade, reações bastante atreladas à replicação de modelos parentais; e, o resultado é no mais das vezes um grande desserviço ao Eu pois, no ressoo inautêntico, vazam pulsão agressiva e angústia.

Que sensação é essa, a de estar perdida nas tantas esquinas do dentro? No interno da mente, perambulo em busca de laços que abracem, cinzeis ou pinceis que deem margens e limites.

Talvez isso seja o que essa andarilha aderida no núcleo de mim deseje encontrar. Talvez tal achado alavanque esse sujeito impreciso a agir espontaneamente, sem depender do mirar forasteiro ao riso, nem de aprovação para ser. Talvez assim, na consciência do ímpar, essa alma inquieta se eleve e leve-se em paz.

A voz que atravessa esse texto eu a roubei, caro leitor e leitora. Apropriei-me em virtude de um caso em estudo: uma adolescente, 18 anos, recém-ingressa na universidade e a trazer em sua mochila o peso de uma importante perda na meninice (luto delicado e não jornadeado), da exclusão e do bullying ao longo do circuito escolar regular. Além de laços, a jovem anseia – em grau elevado – por respeito e senso de pertencimento. Mas se enreda nos estranhos novelos a se entrelaçarem nos pensamentos. Ela ainda se apavora diante da própria esquisitice. Mas a seu favor há o tempo de experienciar e de se nomear enquanto protagonista dela mesma.

Última atualização
22/2/2024 15:40
Marta Moneo
Pós-graduada em A Psicanálise do Século XXI, pela Fundação Armando Alvares Penteado (Faap); Pós-graduada em psicanálise, pela Faculdade Álvares de Azevedo (Faatesp); Formação em psicanálise, pelo Centro de Formação em Psicanálise Clínica Illumen, com sede em São Paulo desde 2010. Outras formações acadêmicas: graduação em administração de empresas, pela Faculdade Ibero-Americana; graduação em letras, pelo Instituto Municipal de Ensino Superior (Imes) Catanduva; Leciona psicanálise, atua como analista didática e supervisora na preparação psicanalítica de alunos do Illumen. Atua na clínica psicanalítica desde 2017, com maior direcionamento ao público infanto-juvenil e adolescente.

'Memórias de chá', novo livro do CIS, ganha vida com homenagens e relatos

'Memórias de chá', novo livro do CIS, ganha vida com homenagens e relatos

Jane Hir
20/4/2024 9:27

Já faz algum tempo (acredito que esse seja um presente do envelhecimento) que venho aprendendo a saborear os momentos vividos. É como se relesse com atenção uma parte da história que ainda estou construindo.

Há duas semanas, escrevi sobre a apresentação do livro Memórias de chá, escrito pelas educandas do Centro de Integração Social (CIS). Nesse evento, uma cena se destaca entre as minhas lembranças: a diretora da unidade presta uma linda homenagem ao seu pai para representar, naquele momento, o leitor.

Pateta no trânsito: reflexões sobre raiva e autocontrole

Controlar o 'Pateta interno' pode transformar sua condução

Carolina Schmitz da Silva
20/4/2024 9:08

Na minha infância, lembro-me de assistir ao filme do Pateta no trânsito, uma animação da Disney na qual ele se transforma em uma pessoa raivosa ao dirigir. Aquela mudança de humor ao entrar em um carro me impressionava profundamente.

Agora, como adulta, vejo-me controlando meu Pateta interno e, em alguns momentos, percebo sua força crescer enquanto dirijo. Tendo consciência de quando ele domina, reconheço quão inadequado ele é.

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