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Opinião

No trabalho ou no sexo, relacionamentos maduros consideram as diferenças

Explore a complexidade das relações humanas e a aceitação da diversidade no contexto brasileiro, abordando inclusão e preconceitos sociais.Explore a complexidade das relações humanas e a aceitação da diversidade no contexto brasileiro, abordando inclusão e preconceitos sociais.
Vinícius Sgarbe
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Vinícius Sgarbe
7/11/2023 23:26

<span class="abre-texto">Prometi continuar a escrita</span> sobre relações entre pessoas. Neste artigo, discuto a experiência comum com a diversidade – uma palavra que pode empolgar, e vender. Fantasiar que damos conta de manejar as diferenças é como viver em um panfleto das Testemunhas de Jeová.

No frigir dos ovos, a coisa toda é bem diferente. Dentre as características estruturais dos humanos, destaco três que considero apropriadas para esta conversa: autopreservação, presente em nosso núcleo mais duro; encontrar um culpado, resultado do que somos em sociedade; e agredir, como forma de solucionar os itens anteriores. É claro que muitos outros elementos caberiam nessa lista, se a ideia fosse escrever uma tese (não é o caso). Muito rapidamente, temos de encarar o fato de que fazemos pouco por quem não é igual. Começo por um aspecto material.

A primeira norma técnica do país para a acessibilidade na construção civil é de 1985. A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência foi promulgada relativamente ontem, em 2015. Só que o surto de poliomielite no Rio de Janeiro foi em 1911. Em São Paulo, e em outras capitais, em 1930. Isso significa que as crianças paralisadas pela doença tiveram um suporte precário para locomoção, dentre outras necessidades, por um par de décadas. Até hoje as cidades não são suficientemente adaptadas. De volta ao comportamento.

“Ah, coitadinho dele, não anda”. Uma piedade sarcástica é percebida quando se demonstra afetação pela história do paralisado, mas aquele que se afeta toma o cadeirante por ridículo. Não significa, porém, tudo menos isso, impedir que as pessoas lidem com suas dores e impotências como for melhor para elas. Mas um piadista realmente preocupado é menos danoso que o santarrão (que, na verdade, não passa de um grande canalha). Pode-se perguntar: amplamente, o que comunicamos para os que são diferentes? "Que somos todos humanos, e que todas as dificuldades são nossas, que podem contar com nosso trabalho, e estima". Se assim fosse, panfleto de novo.

Por enquanto, tratamos de gente que, no Brasil, é amplamente aceita, porque ninguém, supostamente, opta por perder um membro. Porém, quando somos lentos (leis que chegaram fora de época), e irresponsáveis (ao simular preocupação) com as pessoas com deficiência, deixamos claro que a situação vai piorar bastante com gente que, segundo o critério da massa, “só não se comporta bem porque não quer”, afinal "veja o cego, ele é uma pessoa decente, não quer o casamento gay" risos. O caldo daquelas características estruturais fica mais grosso, quando as pessoas são comparadas.

Com sede na experiência nacional com os brasileiros com deficiência, o argumento de que há cinismo pode ser facilmente criticado. Há outras desigualdades ainda mais abrangentes, como a que nega saneamento. Quase metade do país não tem acesso a esgoto. Porém, as publicidades que exploram o tema diversidade não exibem ninguém com diarreia.

Também foi ontem, em 2019, que o Supremo Tribunal Federal equiparou crimes contra a comunidade LGBTQIAPN+ à injúria racial. Não que faça qualquer diferença aos que insistem na pauta dos costumes de proibição. Em resumo, factualmente, é muito novo que a alteridade seja uma questão sobre a mesa. Considerei relevante demonstrar um ponto de vista social e político da diversidade, antes de avançar.

Autopreservação

Aprendemos formas primitivas de nos manter vivos, em nossas famílias. Em um grupo habituado a gritar, gritar passa a ser uma necessidade para a criança existir. Quando um filho é proibido de comunicar suas necessidades, e opiniões, entende que o amor requer dele que não comunique suas necessidades, e que não dê suas opiniões. Com o passar dos anos, sofisticamos essas formas, e inúmeras outras, e tomamos por verdade que aqueles recursos funcionam universalmente. Gritamos no trabalho, somos danosamente complacentes, ou coisa pior.

Saber a origem de nossas emoções, sentimentos, e comportamentos pode, entretanto, ser algo inútil. Mesmo em face de profundas psicanálises ou de outras análises sérias, meramente acessar o inconsciente, e despi-lo, pode não resultar em uma responsabilização. Qual a utilidade de conhecer tal origem, então? Não se trata bem de uma utilidade, mas de uma possibilidade. Para tomar o controle da própria vida (no que se pode controlar), para tomar a responsabilidade de uma vez por todas, quanto mais informações houver melhor. Conclusões do tipo "eu precisava chorar para mamar, mas eu não mamo mais" são alcançadas.

Quando a gente é ignorantão sobre si mesmo, provavelmente é também sobre o mundo. Viver nas sombras aumenta a dificuldade de compreensão. Uma saída fácil é a radicalização, quando, por autopreservação, aceitamos viver dissolvidos nas massas. A professora Suzana Herculano-Houzel formulou um teatro completo sobre o assunto, no qual o indivíduo que opta pelo extremo diz “pelo menos eu consigo entender o que tem aqui”. Apresento um gráfico que não tem nenhuma validade científica, sobre como o pessoal se divide.

Encontrar um culpado

O Ocidente tem um conjuntinho bem batido de significados que reforçam a cada geração a ideia da culpa. Duas historinhas bobas são exigidas. A primeira é a célebre frase de efeito “a culpa é minha, eu ponho em quem eu quiser”.

A outra foi contada pelo pastor Levi Domingos: “uma vez, no inferno, o Diabo estava muito triste, sentado em cima de uma pedra. Um demônio que era muito amigo dele se aproximou, e perguntou ‘por que o senhor está tão cabisbaixo?’. E o Diabo, com lágrimas comoventes nos olhos, respondeu ‘tudo que acontece, os crentes colocam a culpa em mim’”. O tamanho do problema com a culpa é tão grande que é preciso sentir pena do Diabo, como recurso linguístico, para interromper as neuroses e paranoias da comunidade. De volta.

As principais histórias transmitidas para instalar em nós a cultura dizem respeito à expiação da culpa pelo assassinato. O profeta é serrado ao meio, o Nosso Senhor Jesus morre na cruz, o mártir morre em combate pela causa divina. Mesmo enunciados que se distanciaram da religião (como a psicanálise) levam-nos, que coisa, ao assassinato do pai primevo, porque a culpa pela infelicidade dos filhos era dele (segundo aqueles filhos).

Role-play

Com um grande problema para resolver nas entregas da indústria, o gerente de logística chama os supervisores dos três turnos para conversar. A maior parte da extenuante reunião é dedicada a acusações mútuas; um casal querido por ambas as famílias tem uma crise séria, e mulher vai para a casa da mãe dela. Antes da solução, cadê o culpado?; uma organização há meio século no mercado adoece gravemente seus funcionários, e o clima está a cada dia pior. Vou culpar aquele qualquer ali.

Agressão

Por fim, nossos relacionamentos estão sujeitos ao impulso de agressão. Quando a gente viu, já foi. E consertar esses momentos é um dos trabalhos mais nobres que existem. É o assunto da semana que vem.

Última atualização
30/11/2023 20:03
Vinícius Sgarbe
Jornalista, analista transacional, e pesquisador.

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