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Opinião

Fim do mistério: está claro como o cristal qual é a força por trás de Bolsonaro

A relação entre pentecostalismo e política no Brasil destaca o impacto de crenças religiosas nas decisões eleitorais e no debate público.A relação entre pentecostalismo e política no Brasil destaca o impacto de crenças religiosas nas decisões eleitorais e no debate público.
Paulo Pinto
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Agência Brasil
Vinícius Sgarbe
29/2/2024 17:26

<span class="abre-texto">Quando assisti à manifestação</span> de apoio ao ex-presidente Jair Messias Bolsonaro pela internet, tive uma excelente sensação de vitória pessoal, pela verificação de que algumas ideias que tenho sobre política batem com a realidade objetiva. Excelente. Coisa rara. Há alguns anos, com ainda mais afinco nos últimos meses, defendo que não existe bolsonarismo, mas sim pentecostalismo.

Na ocasião em que, no ano passado, traduzi para o francês trechos da minha dissertação de filosofia, tive um trabalho extra para explicar o que é o pentecostalismo para a revisora e para o avaliador da Université de Montpellier.

O termo não faz muito sentido (ou qualquer sentido) para quem não está nos Estados Unidos, ou no Brasil (também o pessoal da Nigéria que entrevistei participa com vontade). O fundamentalismo pentecostal nasce nos States, como resposta à propagação da ciência na educação – lá no começo dos anos 1900. É onde estão localizadas as primeiras disputas entre criacionismo e evolucionismo. Ah. Foi uma iniciativa dos batistas.

No Brasil, a visão de mundo fundamentalista pentecostal é rapidamente assimilada, pela chegada em massa de missionários. Há provas em abundância de que tal fundamentalismo está presente no debate público brasileiro, hoje, a começar pelas figuras de líderes que não podem ser questionados. Eles governam grandes orçamentos, decidem assuntos íntimos de seus liderados, o que inclui a decisão de voto, mas não podem ser questionados.

Em sua prática religiosa, o pentecostal é submetido a um expressivo número de horas de formação. As mensagens são simples e repetidas exaustivamente – tal qual consideram Freud (2020) e Canetti (2019) como funcionamento da comunicação de massa. Dentre essas mensagens está a de que a autoridade é escolhida por Deus, e não cabe a ninguém além de Deus fazer julgamentos sobre ela.

Se o pastor defende que os dinossauros deixaram de existir porque não cabiam na arca de Noé, aceita-se sem questionar. Se o pastor proíbe assistir à Família Dissossauros porque é do diabo, obedece-se, sem se dar conta de que é um programa de televisão genial.

Como ato fundador, Cristo é escolhido por Deus e, portanto, não erra. Uma série de frases ganha o status de ditado popular nas igrejas. “Ai daquele que vai contra o ungido do Senhor”, ou “Deus nunca pediu desculpas para ninguém”, são exemplos de como a relação com a autoridade é construída.

Ocorre que esse modelo de autoridade, recebido como premissa espiritual, tem efeitos práticos para a figura do pastor. Ele pode até errar, mas “quem é você para ir contra o ungido do Senhor?”. Por progressão, e dadas as condições eleitorais observadas nos últimos anos, o messias Bolsonaro ocupa esse papel. É uma transferência simplíssima, e ridiculamente fácil de ser verificada.

Mas esse elemento não seria suficiente para garantir que o pentecostal se rendesse irrestritamente à autoridade religiosa ou política. Se fosse, os jovens (e todos os outros) não deixariam a igreja para cometer todas as barbaridades previstas pelo pastor ao longo de suas formações. Porque se existe uma pessoa interessada em cometer todo tipo de desobediência social e civil é o crente que abandona a igreja.

Um pai para o fim do mundo

O que deve ser acrescentado aqui é a perspectiva pentecostal sobre o fim do mundo. Essa discussão encontra na psicanálise um material riquíssimo, no sentido da arqueologia do comportamento humano. Em linhas gerais, o indivíduo – todos nós – é carente de uma substituição parental. Quando criança, os cuidadores desse indivíduo eram proteção suficiente contra os perigos conhecidos: fome, abrigo, vestimenta, colo para subir quando atacado por um cachorro.

Com o passar dos anos, os perigos mudam, junto à consciência de que aqueles cuidadores não são assim tão poderosos. Com a chegada do desamparo, alguém ou algo deve ocupar o lugar vago. Como “Deus me ama e morreu por mim”, além de ser todo-poderoso, a substituição é aparentemente perfeita.

A questão é tão saliente que, para Freud, aquele que adere à religião conquista a façanha de não ter mais neuroses individuais, que são substituídas por uma “neurose universal”. É desse ponto de vista que se pode observar a aversão dos pentecostais aos médicos.

Muito frequentemente, os púlpitos oportunizam histórias em que o médico estava errado e Deus estava certo. E, igualmente frequente, é a história de que o médico, ao fim de um tratamento, teria reconhecido que nunca viu algo parecido, que aquela cura é um milagre. O puro suco da neurose universal, pela qual nenhum assunto foge do gabarito geral de correção da cultura.

Os mais infantis

Avança-se para o que é definido por Adams: “a religião, conforme afirmado por Freud, é um desejo regressivo pelo pai, então os fundamentalistas são os mais religiosos dos religiosos, os mais infantis dos infantis" (2010, p. 27). O infantilismo fica explicitado quando da crença de que seu pai substitutivo aparecerá a qualquer momento para vingá-los dos maus. Mas esses maus não são necessariamente déspotas, genocidas, gente que vive muito bem às custas da pobreza alheia. Trata-se, e sinto certo constrangimento em contar esta verdade, de aniquilar candomblecistas, umbandistas, homoafetivos e homossexuais, e, claro, o Papa.

A ideia de que o fim do mundo está próximo, e que as pessoas serão selecionadas para um arrebatamento está arraigada na mentalidade pentecostal. Há uma série de filmes de quinta categoria – que muito parecem com um quadro do Hermes e Renato – sobre os acontecimentos do fim dos tempos. Em resumo, os crentes somem do mundo, e quem ficar terá um único jeito de se livrar do sofrimento eterno, qual seja, não aceitar a marca da besta.

O esquerdista radical, junto aos militares do nazismo e outras figuras da mesma categoria, é tido como uma figura patética. Ontem mesmo, assisti a uma comédia na qual Hitler passeava no inferno usando um vestidinho infantil, e tinha de escolher os abacaxis que seriam socados em seu rabo. O comunistinha de universidade apareceu muito bem em personagens de Chico Anísio, e mais recentemente no programa Tá no ar.

Ninguém perde tempo pensando no ridículo que é ser um extremista rabugento de esquerda. Ele não causa nenhum medo. É chegada a hora de colocar a pequenez, a estupidez, a baixaria dos fundamentalistas pentecostais no lugar certo. E lá esquecê-los até que aprendam a comer com talheres.

O convite ao delírio pentecostal bate com força em pelo menos duas necessidades do indivíduo. A primeira é que a presença simbólica de um pai substitutivo cai como uma luva para solucionar o problema da morte – com o bônus de que, além de ser livrado da morte, porque viverá para sempre no céu, os inimigos do departamento pagarão por todas as vezes em que se recusaram a “aceitar Jesus” ou desprezaram a autoridade do pastor. E o outro aspecto é a necessidade de pertencer a um grupo.

Entra qualquer um

Como as mensagens são simples e repetidas, como repito aqui agora, não é preciso lá muito esforço para a compreensão de qual é o cânone do grupo. Essa facilitação de participação parece uma trapaça socialmente aceita, é como ser “café com leite” para sempre na relação com os outros. Entra qualquer um. Do ponto de vista teológico, muito bonito; do ponto de vista social, louvável; do ponto de vista de uma preguiça existencial e de uma fraqueza intelectual, é a oportunidade que o lânguido esperava para ser aceito em alguma coisa.

Registre-se, para a finalidade de minha paz de espírito, que em nenhum momento do texto discuti a boa prática da religião, qual seja sua finalidade de encurtamento até uma experiência transcendental. Efetivamente, há pentecostais que valem sozinhos multidões inteiras de pessoas, de tão maravilhosos e libertos que são. Mas essa gente não está descrita no texto, e com certeza não se identificou em níveis pessoais com qualquer crítica contida aqui.

Engana-se perigosamente o analista político que desconsidera a engenharia psíquica presente no movimento pentecostal.

Escondidos em seu próprio medo de extinção, os religiosos dizem sobre si mesmos que serão, no futuro, perseguidos, embora seja uma sugestão que parte deles mesmos – são eles que se diminuem. Agora, decidem romper em absoluto com os palcos públicos nos quais estão inscritas as tradições. É uma contradição que os evangélicos bolsonaristas se autodenominem conservadores ao mesmo tempo em que desprezam o conhecimento.

Além do mais, estão absolutamente ativos na atividade político-partidária, o que não tem absolutamente nada a ver com religião. Se querem participar, ótimo. Vamos começar com o fim da isenção de impostos para igrejas. Daí podemos começar a conversar.

Referências

ADAMS, David. Myth and Dogma in 1920: The Fundamentalist-Modernist Controversy and Freud’s ‘“Death Drive.”’ In: GOURGOURIS, Stathis (org.). Freud and Fundamentalism: The Psychical Politics of Knowledge. New York: Fordham University Press, 2010. p. 26–37.

CANETTI, Elias. Massa e poder. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu (1921). In: IANNINI, Gilson; TAVARES, Pedro Heliodoro (org.). Cultura, sociedade, religião: O mal-estar na cultura e outros escritos. 1. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. p. 137–231.

Última atualização
29/2/2024 18:15
Vinícius Sgarbe
Jornalista, analista transacional, e pesquisador.

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