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Opinião

Encontros sinceros e presença importam mais de lembranças e comida

Reflexão sobre celebrações de fim de ano, destacando a importância dos encontros genuínos e a reconstrução de laços sociais, em oposição às distrações modernas.Reflexão sobre celebrações de fim de ano, destacando a importância dos encontros genuínos e a reconstrução de laços sociais, em oposição às distrações modernas.
Arte Cidade Capital
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Maku de Almeida
18/12/2023 0:03

<span class="abre-texto">Sob uma abóbada cinza</span>, aqui na Vila, teto de nuvens que não me canso de admirar, reverberam em meu pensamento episódios e textos pelos quais corri o olhar ao longo da semana.

As celebrações de fim de ano já anunciam sua chegada – ruas, lojas e casas vestidas a caráter. E os eventos começam a se desenrolar, repetindo rituais já muitas vezes vividos. Nos relatos e fotografias, os cenários são semelhantes, mas as pessoas mudam. Brindes, presentes trocados e comidas podem confundir, misturando-se à celebração de encontros e convivências reais.

Sorrisos expressam a alegria do pertencer, do ser aceito e amado. É bonito ver, pois eclipsam aqueles presentes e comidas. São maiores, mais abrangentes e íntimos. Destes, pouquíssimos são publicados, pois são de fato vividos (sem sequer pensar em sacar o celular). São desfrutados, degustados e guardados em um canto especial da memória.

Lembro-me de outros eventos pela forma e pela circunstância. Nesses, ao contrário, há muito tempo e espaço para registros fotográficos. De fato, há pouca conversa de contato, substituída por algo rápido e de passagem.

Nesta época do ano, muitos sermões debulham detidamente a palavra “reconciliação”. Como meu palco mental se relaciona de forma meio dramática com as palavras, insurjo-me a esta. Reconciliar supõe recuperar o que já existiu. Quando opiniões, religiões e preconceitos cavavam fossos profundos entre as pessoas, houve alguma conciliação com aqueles que estavam nas beiradas opostas da vala?

O caminho do encontro é construído por passos pequenos e frequentes. Um propósito se solidifica e nutre a intenção de proteger o relacionamento dos danos (tão humanos) a que estamos expostos quase o tempo todo.

No encontro, constrói-se um lugar onde cabem as pessoas por inteiro, com conforto e respeito. Já se combina, também aos poucos, mas de antemão, como lidar com as vitais distensões. Tece-se um crochê delicado de pontos em comum, ou pontos que se combinam, ou pontos que, por serem tão diferentes, enfeitam a ponte de conexão. É um projeto de vida sem fim. Os pequenos ajustes fortalecem os pontos de contato, por meio de alterações dos acordos que reforçam a linha, abrem novos horizontes e trazem desenhos inéditos à ponte.

Sei que isso quase não acontece (mas às vezes acontece). E também sei que, quando um encontro acontece, é difícil mantê-lo. O nutrir cai tão rapidamente no esquecimento que, como se do nada, vozes, brados e acontecimentos interferem e desmancham os pontos.

Cá estou, de novo, em embates internos variados – risos. Há um desejo tão grande de dizer a cada um, na sua beirada, para lançarem fios um para o outro e recomeçarem o tecer da presença.

Não posso esquecer que, da grande distração que nos acometeu nestes tempos, grupos inteiros se fragmentaram em ilhas solitárias. Da fragilidade ou da inexistência das pontes, aproveitaram-se os arautos da violência, do desrespeito e da destruição. Por não se sentirem firmemente garantidos por pontos de contato genuínos e seduzidos pela constância da voz estranha, muitos de nós se perderam. Eles não estarão presentes sequer em um ritual banal de celebração.

Tenho um desejo grande, que de tão grande me arremessa no silêncio, de que algumas dessas pessoas conversem um pouco, nem que seja durante as celebrações de fim de ano. Que façam planos de um futuro em que se tece em conjunto.

Propus a mim mesma não participar meramente como convidada de pontes alheias. Hoje, organizo-me para admirar e respeitar o jeito de cada um. Recolho-me quando não há nada a ser feito.

Assim, volto, com passos relutantes, ao “reconciliar”. Pontes rotas podem ser remendadas, mas e as pontes que nunca existiram?

Cada um com seu megafone na mão (sem gritar, por favor), bora fazer convites. Respirar fundo, espiar com atenção – a ponto de enxergar o outro. Bora fazer convites. Não só para brindes, mas para encontros que tenham mais do que um “Olá!”. Quem sabe até mesmo celebrar a desistência de uns, mas sem desistir de tantos.

Última atualização
10/1/2024 14:59
Maku de Almeida
Analista transacional. Escreve aos domingos.

'Memórias de chá', novo livro do CIS, ganha vida com homenagens e relatos

'Memórias de chá', novo livro do CIS, ganha vida com homenagens e relatos

Jane Hir
20/4/2024 9:27

Já faz algum tempo (acredito que esse seja um presente do envelhecimento) que venho aprendendo a saborear os momentos vividos. É como se relesse com atenção uma parte da história que ainda estou construindo.

Há duas semanas, escrevi sobre a apresentação do livro Memórias de chá, escrito pelas educandas do Centro de Integração Social (CIS). Nesse evento, uma cena se destaca entre as minhas lembranças: a diretora da unidade presta uma linda homenagem ao seu pai para representar, naquele momento, o leitor.

Pateta no trânsito: reflexões sobre raiva e autocontrole

Controlar o 'Pateta interno' pode transformar sua condução

Carolina Schmitz da Silva
20/4/2024 9:08

Na minha infância, lembro-me de assistir ao filme do Pateta no trânsito, uma animação da Disney na qual ele se transforma em uma pessoa raivosa ao dirigir. Aquela mudança de humor ao entrar em um carro me impressionava profundamente.

Agora, como adulta, vejo-me controlando meu Pateta interno e, em alguns momentos, percebo sua força crescer enquanto dirijo. Tendo consciência de quando ele domina, reconheço quão inadequado ele é.

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