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Opinião

Educar filhos: entre o amor pleno e as sombras da criança interna

Exploração profunda dos desafios emocionais na parentalidade, destacando a influência da criança interna dos pais no desenvolvimento dos filhos.Exploração profunda dos desafios emocionais na parentalidade, destacando a influência da criança interna dos pais no desenvolvimento dos filhos.
Vinícius Sgarbe
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Adobe Firefly
Maku de Almeida
25/2/2024 17:42

<span class="abre-texto">Algo que sempre me atrai a atenção</span> são os comportamentos humanos. Curiosa desde sempre, fico a imaginar como foi a infância deste, daquele, do outro. O que será que aconteceu para gerar adequações e inadequações? Como eram os pais, a família, em que contexto cresceram estes seres, às vezes tão perdidos pelo caminho?

Parentalizar é o grande desafio para todos os envolvidos na empreitada. E é um grande acontecimento da vida, para o qual muito raramente nos preparamos. Mães e pais, cada um com seu pacotinho de repertório vivido, entranhado nas vísceras, recebem o bebezinho estreante na vida, um ilustre desconhecido.

Com desejo real e sincero (na maior parte das vezes) de acertar, seguem em frente, escutam atordoados os conselhos (e críticas) de tias, mães, sogras, avós – e se vão, às vezes a trancos, às vezes a barrancos, levando adiante a missão. Um caldeirão de emoções intensas, de largo espectro, é cenário.

Este pequenino ser, o bebezinho, precisa muito da atenção plena, do amor, do toque, do cuidado, do atendimento às suas necessidades básicas. Precisa que os humanos à sua volta tenham disponibilidade emocional para acompanhá-lo de perto por um pedaço da jornada, para estimular sua autonomia em outro trecho e, para sair elegantemente de cena, com um amor disponível e transbordante à distância, mantendo-se fora do palco.

Difícil, não é? E sabe quem interfere, tempo integral, neste saudável desenvolvimento? A criança interna daquele que cuida. O foco fica dividido entre as necessidades dos filhos e as dores das necessidades não atendidas de uma criança abrigada no porão mental dos pais. E os filhos passam a servir de intermediários para a resolução dessas necessidades.

Sem recursos suficientes para entender ou lidar com aspectos bem pragmáticos da rotina, a criança abrigada no corpo adulto passa a disputar o palco com as crianças reais, que seguem experimentando suas descobertas, dores e maravilhamentos.

O movimento de estimular a autonomia dos filhos, de estimular seus voos exploratórios, de permitir que eles desenvolvam seus próprios repertórios de acertos e erros são ações diretamente conectadas à consciência e ao autocuidado dos pais.

A dor maior é constatar que, a partir do fim da primeira infância, os filhos já não mais “precisam” tanto dos pais e já expandiram seus círculos sociais. O desespero se instala ao longo dos anos “teen”, a adolescência, quando a expansão continua e os primeiros conhecimentos, valores e repertórios são contestados e validados (ou não). Manter a distância respeitosa pode ser um presente para os filhos.

A criança interna, nestes momentos, em animado debate com os resquícios das figuras parentais do passado, insiste em controlar, superproteger, cercear, tem medo de que algo possa acontecer, que os filhos não consigam ultrapassar as barreiras, que o mundo está muito difícil.

É assustador pensar que precisamos criar nossos filhos para que não precisem de nós, para que desenvolvam seus próprios recursos, para que confiem em si mesmos e na própria força interior. Pois esta é a manifestação mais profunda e sofisticada do amor: acompanhar respeitosamente a capacitação dos filhos e vê-los voando por trilhas que muitas vezes sequer conhecemos.

Neste momento, preciso pedir sua autorização, leitor. Devo partilhar aqui algo muito complicado de ouvir e que pode soar um pouco duro demais.

É quase desonesto quando eu, a partir da posição de poder parental, subtraio dos meus filhos o direito de viver a própria vida.

Quando, para atender às minhas necessidades egóicas, rejeito o ser humano em expansão à minha frente, extorquindo um respeito ritualizado. Quando forço a conformidade ao que penso, ao que acredito, ao que faço.

Estas são receitas simples para marcar aquela criança de tal forma que, quando for o momento de assumir o papel parental, o ciclo se repetirá. Uma criança em sofrimento disputando espaço com uma criança em desenvolvimento.

Posso e devo validar e dar significado a este precioso relacionamento através do amor e das pequenas práticas amorosas. Preciso e devo renunciar às práticas que estimulam a dependência e a falta de autonomia. Como?

Um caminho de presença plena no presente, permeado pela consciência, pelo fortalecimento da independência, pelo exercício do desapego e pelo exemplo. Precisamos dedicar um tempo importante para parentalizar a nós mesmos, para entender e suprir as nossas necessidades e dores de modo que o relacionamento com nossos filhos não seja pautado pela nossa criança interna.

Ao encontrar meus próprios significados, não preciso realizá-los através da vida dos meus filhos.

Deixá-los ir, mantendo a porta e o coração aberto, honrar a capacidade de cada um de pensar, de dar conta das próprias decisões. Escapar da tentação de julgar e intervir – respeitar os contratos, tarefas enfileiradas que parecem tão simplinhas cuja aplicação é um tanto mais complexa. Muitos abandonam o propósito, cuja operacionalização é tão cheia de acertos e erros que falta o ar por vezes.

O conflito entre a criança interna e os filhos é tão grande que, em algumas situações, ganha a criança abrigada no corpo adulto e os filhos são abandonados. Mas este é um assunto para outro domingo destes.

Última atualização
25/2/2024 17:49
Maku de Almeida
Analista transacional. Escreve aos domingos.

'Memórias de chá', novo livro do CIS, ganha vida com homenagens e relatos

'Memórias de chá', novo livro do CIS, ganha vida com homenagens e relatos

Jane Hir
20/4/2024 9:27

Já faz algum tempo (acredito que esse seja um presente do envelhecimento) que venho aprendendo a saborear os momentos vividos. É como se relesse com atenção uma parte da história que ainda estou construindo.

Há duas semanas, escrevi sobre a apresentação do livro Memórias de chá, escrito pelas educandas do Centro de Integração Social (CIS). Nesse evento, uma cena se destaca entre as minhas lembranças: a diretora da unidade presta uma linda homenagem ao seu pai para representar, naquele momento, o leitor.

Pateta no trânsito: reflexões sobre raiva e autocontrole

Controlar o 'Pateta interno' pode transformar sua condução

Carolina Schmitz da Silva
20/4/2024 9:08

Na minha infância, lembro-me de assistir ao filme do Pateta no trânsito, uma animação da Disney na qual ele se transforma em uma pessoa raivosa ao dirigir. Aquela mudança de humor ao entrar em um carro me impressionava profundamente.

Agora, como adulta, vejo-me controlando meu Pateta interno e, em alguns momentos, percebo sua força crescer enquanto dirijo. Tendo consciência de quando ele domina, reconheço quão inadequado ele é.

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