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Opinião

Discussão pós-filme revela complexidade das percepções humanas

Reflexão sobre como filmes e conversas moldam nossa percepção da realidade e das pessoas, destacando a importância do diálogo.Reflexão sobre como filmes e conversas moldam nossa percepção da realidade e das pessoas, destacando a importância do diálogo.
Vinícius Sgarbe
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Adobe Firefly
Maku de Almeida
18/2/2024 12:36

<span class="abre-texto">Ao sair do cinema, conversando despretensiosamente</span> com minha filha enquanto atravessávamos o shopping vazio no início da madrugada, fui surpreendida pela percepção desta mulher linda ao meu lado. Ela e eu preenchemos as lacunas que o filme não contemplou de modo particularíssimo e decidimos, a respeito da personagem central, culpa ou não.

Ainda envolvida com o filme, de que gostei imenso, eu assobiava o belíssimo noturno de Chopin, trilha sonora da relação da personagem e seu filho. Acho estes momentos que esticam a experiência espetaculares.

Impactada pelo filme e pela conversa, gerei uma animada conversação no meu condomínio mental por alguns dias. Ainda hoje, uma semana depois, há vozes remanescentes que se acendem aqui e acolá no meu pensamento. Nas vezes em que conversei a respeito, pessoas diferentes trouxeram contribuições ricamente diferentes para esta reflexão. As considerações se estenderam para outras áreas e poderiam ter gerado conversas longas, caso a vida real não nos abduzisse.

E quando lemos um livro e estranhamos a versão em filme? Discordamos da abordagem, do cenário, da composição dos personagens...

Um filme adaptado a partir de um livro, muitas vezes, deixa de apresentar os pensamentos e sensações dos personagens que, decalcados aos nossos próprios pensamentos e sensações, constroem uma composição única e quase real.

E é preciso conversar um bocado para identificar os pontos consonantes e aqueles que divergem. Conversar, trazendo para o diálogo a certeza da incerteza, a leveza da ignorância parcial, o bom humor que antecede descobertas. Caso contrário, é disputa de pseudocertezas, chatos e desgastantes debates que afastam as pessoas.

Saindo do mundo da arte, este é um recorte da vida. Pouco sabemos das pessoas em geral e daquelas ao nosso lado em particular. Em cada um, do nariz para dentro, há um mundo interior intenso, que nem depende da porta do guarda-roupa do mundo de Nárnia para ser acessado.

É curiosíssimo (melhor dizendo, eu acho curiosíssimo) assistir a analistas sérios, com a sobriedade de Sherlock Holmes das almas, buscando identificar razões, intenções, motivações de personagens da vida pública, esticando o olhar para um mundo que nem o próprio personagem muitas vezes consegue interpretar.

É como ao assistir a um filme, vejo os analistas preenchendo as lacunas com as próprias percepções, percepções estas influenciadas pelos próprios condomínios mentais.

Cada analista com sua Nárnia desenha versões da figura analisada. Naturalmente, nossos mecanismos de sobrevivência enquanto espécie nos permitem identificar algumas informações reais, sinais de alerta... que poderiam, talvez, auxiliar a deslindar este complexo cipoal, caso escutados com atenção.

Muitas vezes escuto pessoas dizendo: "Conheço fulano como a palma da minha mão!" Tenho tentação de dizer (e às vezes digo, quando a ocasião permite): "Mostre-me sua mão e a descreva em detalhes." Quem chegou até aqui, experimente fazer isto: feche os olhos e tente imaginar sua mão. Depois, confira. Interessante, né?

Minhas reflexões nos últimos tempos, frente aos diferentes cenários que nosso planeta apresenta, muitas vezes me obrigam a um questionamento de fora para dentro. Minha primeira reação é tomar partido imediato (como no filme). E assim como ao assistir o filme defendi a personagem por questões da minha própria biografia, pois vivi pequenos retalhos de vida semelhantes aos dela, aqui, neste cotidiano árido, preciso arrastar minha lucidez para jogo, de modo a não me precipitar em decisões, julgamentos, encaminhamentos.

Dureza silenciar todas as vozes internas, para escutá-las uma de cada vez, tirar os vieses tiráveis, checar dados disponíveis e aliviar minha consciência de debates inúteis.

É quase um alívio quando a realidade me devolve evidências de que, afinal, não estava tão longe assim nos meus julgamentos. Isso acomoda o desconforto e permite que eu não vergue sob responsabilidades que talvez não consiga honrar.

Neste fim de semana, após profunda reflexão, mandei mentalmente um abraço para os familiares do militante russo falecido misteriosamente em uma prisão; para as tantas pessoas que foram vítimas de violências públicas ou privadas, físicas ou emocionais; para tantas crianças que foram privadas da convivência parental, que não podem contar com cuidado e segurança; para adultos que, sem conseguir domar os próprios pensamentos, seguem, sem pensar, pensamentos estrategicamente aplicados para controle; para aqueles atingidos pela inconsciência, mentira, manipulação.

Meus pensamentos e sensações preenchem as lacunas das notícias, direcionando meu olhar para os impactos nas vidas de muitos das ações perversas de poucos. Fico sem ar frente à magnitude da tarefa de fazer alguma coisa para minimizar estas crateras emocionais nas vidas das pessoas. Após muito pensar, em silêncio, no meu canto aqui na Vila, busco conforto na ideia/projeto de sensibilizar as pessoas para a adoção de padrões de colaboração simples e persistentes. Pouco a pouco podemos ampliar a rede de lucidez e respeito. Nossa espécie precisa, nosso planeta precisa.

Última atualização
18/2/2024 12:36
Maku de Almeida
Analista transacional. Escreve aos domingos.

'Memórias de chá', novo livro do CIS, ganha vida com homenagens e relatos

'Memórias de chá', novo livro do CIS, ganha vida com homenagens e relatos

Jane Hir
20/4/2024 9:27

Já faz algum tempo (acredito que esse seja um presente do envelhecimento) que venho aprendendo a saborear os momentos vividos. É como se relesse com atenção uma parte da história que ainda estou construindo.

Há duas semanas, escrevi sobre a apresentação do livro Memórias de chá, escrito pelas educandas do Centro de Integração Social (CIS). Nesse evento, uma cena se destaca entre as minhas lembranças: a diretora da unidade presta uma linda homenagem ao seu pai para representar, naquele momento, o leitor.

Pateta no trânsito: reflexões sobre raiva e autocontrole

Controlar o 'Pateta interno' pode transformar sua condução

Carolina Schmitz da Silva
20/4/2024 9:08

Na minha infância, lembro-me de assistir ao filme do Pateta no trânsito, uma animação da Disney na qual ele se transforma em uma pessoa raivosa ao dirigir. Aquela mudança de humor ao entrar em um carro me impressionava profundamente.

Agora, como adulta, vejo-me controlando meu Pateta interno e, em alguns momentos, percebo sua força crescer enquanto dirijo. Tendo consciência de quando ele domina, reconheço quão inadequado ele é.

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