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Opinião

Assassinatos motivados por política expõem entranhas da manipulação

A condenação de um jovem agricultor a 51 anos de prisão por duplo homicídio ilustra os graves impactos da desinformação e manipulação política na sociedade.A condenação de um jovem agricultor a 51 anos de prisão por duplo homicídio ilustra os graves impactos da desinformação e manipulação política na sociedade.
Arte Cidade Capital
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Maku de Almeida
21/1/2024 17:05

<span class="abre-texto">A mentira que mata.</span> Ao longo desta semana, mais de uma vez, este tema esteve presente nas minhas reflexões, de muitas e tantas maneiras. A minha criança interior, que aprecia um pensamento mágico, sussurra neste momento: parece que seu pensamento magnetiza a realidade, e eventos engatilhados por mentiras são apresentados publicamente.

Em um momento como notícia, em outro como reflexão filosófica, em alguns para alongar a rede com mais mentiras.

As mentiras são, deliberadas ou não, estratégias eficazes de manipulação e controle.

O mentiroso controla o crédulo, que por medo, crença de menos valia, ou por não ter sido ensinado a questionar e a pensar, não confronta o dito com os fatos.

As mentiras vão engendrando realidades paralelas com tal intensidade que passam a compor o quadro de referência do crédulo como tijolos sólidos de realidade palpável. Como fantoches, as pessoas controladas pelas mentiras passam a executar manobras definidas pelo mentiroso. Este se coloca em um patamar de superioridade, dali conduzindo pensamentos, sentimentos, comportamentos e decisões de grupos e pessoas.

As mentiras vão aos poucos retirando dos crédulos a capacidade de pensar por si mesmos e, ato contínuo, passam a mentira adiante, replicando canhestramente a ação do poderoso, criando sua própria claque de subcrédulos e, assim, podemos ver plantações-pirâmides de ficções habilmente construídas para tomar de assalto mentes e consciências.

Aos poucos, submissas às ordens emanadas, as pessoas com os pensamentos desorganizados perdem a capacidade de entender e gerir a própria vida. Mergulhados em insucessos e derrotas, são orientados a destinar a culpa a alguém – devidamente plantado em sua cabeça pelo controlador.

De assustar e gelar a base da coluna vertebral quando, saindo dos conceitos, vemos a realidade espelhar este sofisticado balé de poder. Nesta semana, partilhando o espanto de uma notícia com um amigo irmão de alma, vemos este roteiro, detalhe por detalhe, se apresentar.

Um jovem agricultor foi julgado e condenado a 51 anos de reclusão por ter assassinado duas pessoas e tentado matar outras tantas. Com armas devidamente registradas, atingiu o pescoço de uma senhora e o abdômen de um homem, indignado pelo resultado da eleição. Dentro dos pensamentos desordenados do assassino, o novo gestor levaria o país à bancarrota, e ele perderia tudo: propriedade, animais, posses, carros etc. Não podendo suportar a comemoração “do outro lado”, reagiu utilizando suas armas devidamente registradas e fugiu.

A notícia por si só é horrorosa e me assusta, pois é a escalada previsível de uma manobra perigosíssima de poder, que por onde passa deixa um rastro de sangue e vísceras – manobra organizada para destruir o inimigo. Assassinar é método. Basta uma rápida espiada nos livros de história, e vemos se repetir a mesma sequência. Infelizmente, mesmo longe dos livros, pode-se ver acontecer em muitos lugares.

Em frente ao juiz, o assassino, filho, irmão, vizinho, conhecido de pessoas daquela pequena cidade, repete e repete que perdeu tudo “por culpa deste governo que está aí”. O operador de direito que toma seu testemunho, com habilidade e gentileza, o questiona se os atos cometidos por ele “talvez” tenham sido a causa das suas perdas.

Não, não! O assassino, enérgico e arrogante, faz algo que parece ficção científica – tenta convencer o promotor da sua ideia, faz campanha política, repete a sequência de mentiras cuidadosamente elaborada e infinitamente repetida.

É um caso dentro de muitos que surgem, ganham corpo, são disseminados e encontram acolhida, por mais estapafúrdio que seja, em muitas mentes. Mentiroso e crédulo compõem um sistema sofisticado. O mentiroso aposta na eficácia da sua mentira, considerando a confiança que gera. Constrói com acurácia cenas e argumentos que vão desmontando na pessoa o desejo de autonomamente buscar fatos, dados, evidências, outras ideias, outras falas. Pois o mentiroso articula, arquiteta e desenha deliberadamente razões e motivos para que uma pessoa ou um grupo de pessoas sejam os causadores de todas as dores e dificuldades do crédulo.

Já é complexo por si só, imagine se aquele que cria as realidades fictícias é uma pessoa de importância, uma figura parental parecida com aquelas a que o pequeno crédulo aprendeu a acreditar e obedecer.

Certo é que é bem complicado confrontar as mentiras. Pois em casos mais sofisticados supõe desnudar camadas, examinar cada fato e cuidar para que a contaminação da indignação não descarte a lucidez necessária para esta delicada tarefa.

A lucidez pode ser roubada do crédulo, sem que ele nem perceba – e em pouco tempo, assim como o jovem assassino, enxergará como verdade absoluta uma ficção cuidadosamente implantada no seu panorama mental.

Aquele que utiliza a mentira como manobra de poder sabe onde quer chegar, sabe o que quer obter, sabe os ganhos que quer amealhar. A legião de crédulos entrega sua vida (e a vida de outros) no altar destes Pinóquios perversos – que as utiliza, desgasta e descarta com desenvoltura.

Convidei meu amigo irmão para dialogarmos muito a respeito, pois sei que talvez tenhamos pouco a fazer de concreto. Mas precisamos fazer. Dentro da nossa estrutura mental, nas nossas comunidades – sem discurso, sem falas iradas – agindo. Com coerência e consistência. Muitas vezes, no mundo fictício apregoado, a vida de verdade parece pouco emocionante... mas é de verdade! É real.

Última atualização
28/1/2024 16:22
Maku de Almeida
Analista transacional. Escreve aos domingos.

'Memórias de chá', novo livro do CIS, ganha vida com homenagens e relatos

'Memórias de chá', novo livro do CIS, ganha vida com homenagens e relatos

Jane Hir
20/4/2024 9:27

Já faz algum tempo (acredito que esse seja um presente do envelhecimento) que venho aprendendo a saborear os momentos vividos. É como se relesse com atenção uma parte da história que ainda estou construindo.

Há duas semanas, escrevi sobre a apresentação do livro Memórias de chá, escrito pelas educandas do Centro de Integração Social (CIS). Nesse evento, uma cena se destaca entre as minhas lembranças: a diretora da unidade presta uma linda homenagem ao seu pai para representar, naquele momento, o leitor.

Pateta no trânsito: reflexões sobre raiva e autocontrole

Controlar o 'Pateta interno' pode transformar sua condução

Carolina Schmitz da Silva
20/4/2024 9:08

Na minha infância, lembro-me de assistir ao filme do Pateta no trânsito, uma animação da Disney na qual ele se transforma em uma pessoa raivosa ao dirigir. Aquela mudança de humor ao entrar em um carro me impressionava profundamente.

Agora, como adulta, vejo-me controlando meu Pateta interno e, em alguns momentos, percebo sua força crescer enquanto dirijo. Tendo consciência de quando ele domina, reconheço quão inadequado ele é.

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