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Opinião

A solidão e as palavras

Na jornada pessoal de uma ávida leitora, história ilustra o impacto profundo da leitura na vida, desde a infância até a compreensão do "sentimento oceânico".Na jornada pessoal de uma ávida leitora, história ilustra o impacto profundo da leitura na vida, desde a infância até a compreensão do "sentimento oceânico".
Arte Cidade Capital
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Maku de Almeida
14/1/2024 11:39

<span class="abre-texto">Desde criança, por razões que entendo hoje</span>, meu refúgio era o mundo da fantasia. Quando neste recanto chegou o ato de ler, ficou ainda mais potente e reconfortante. Um pouco antes da adolescência, um par de óculos veio compor o cenário – junto a estes, a função de cuidar para que não se quebrassem.

Assim, enquanto meus colegas jogavam durante o recreio, eu podia ser encontrada na biblioteca do colégio, farta em literatura religiosa – tempos em que pensei em ser santa. Não funcionou!

Paradoxo dos paradoxos, minha família de origem é populosa e, mesmo naquela multidão, eu estava sempre mais dentro de mim, sozinha, do que fora. Tinha uma sensação constante de solidão, mesmo em meio a uma overdose de barulho – característica dos encontros. Nos lugares, os livros, tal como ímãs, me atraíam. Na casa da minha Vovó Nenê, um tesouro. Minhas tias liam muito, alguns livrinhos pequenos e românticos... que às escondidas, pois eram proibidíssimos, eu durante as férias me abastecia de roteiros interessantes.

Assim, estive cercada de livros a vida inteira – seus personagens e histórias. Continuo espiando o mundo através de palavras, cercada de milhares de livros. Um dia, um pequeno cliente, menino lindo e de uma inteligência vibrante, com olhar curioso, olhou a imagem da biblioteca pela tela, voltou seus olhos para mim e perguntou meio assustado: "Você leu todos estes livros?" Concordei com um movimento de cabeça, estava encantada com o olhar daquele ser humano... e ele me perguntou: "Se leu todos estes livros, quando você viveu?"

Naquele momento, tempos diferenciados pelas dores da pandemia, sorri meio sem graça. Não tive resposta a dar.

De lá para cá, fui construindo esta resposta. Como tantas, de tantas pessoas, ler foi uma das minhas estratégias de defesa. Fugir da desestrutura do presente e fazer família em enredos bem descritos, manteve minha sanidade por muitos anos – e, de certa forma, ainda mantém.

Bem menor do que a dor, a curiosidade continua movimentando meu desejo e meu interesse por saber o que está acontecendo dentro das duas capas. Ou o que aquela pessoa que escreveu viu, pensou, viveu antes de espremer a experiência em palavras. Ainda me custa despedir de um bom livro, e nas últimas páginas vou reduzindo a velocidade de leitura de modo a esticar a experiência.

É claro que pude aprender muito e não aprender muito também. A experiência com as pessoas, o chegar até o despedir – até onde minha memória alcança, foi complexa. Daquilo que me fazia fugir para os livros, ficou como companhia até hoje, um olhar assustado – habilmente escondido – e um desejo de voltar rápido para meu canto. Canto protegido, mediado, seguro. Hoje já consigo prover confiança suficiente a esta menina do passado, para que ela fique mais presente com as pessoas. Ela já atende ao meu convite para experimentar vínculos e confiar. Foge menos. Sofre menos.

Reconheço este olhar assustado onde quer que eu esteja.

De pessoas que não experimentaram vínculos seguros e confiáveis e que desenvolveram um sem-número de estratégias para se manterem vivas na confusão dos relacionamentos. De pessoas que não receberam amor incondicional a ponto de não duvidar de ser ou não parte. A ponto de não saber amar ou receber amor. Meu papel hoje é acolher e apoiar a jornada destas pessoas.

As palavras encontradas em livros me ajudaram a entender os fenômenos, tê-los vivido deu-me uma paleta de compreensão e um desejo muito grande de dizer a quem puder ouvir, que é tempo. Sempre é tempo. Para viver fora dos refúgios.

Nesta semana, pela primeira vez, encontrei em duas palavras, um ponto de reflexão a respeito de estratégia de sobrevivência: sentimento oceânico. Como uma encantada por palavras, mesmo sem saber o que significavam, já saboreei as duas e por dias elas ficaram zanzando no meu condomínio mental.

Impulsionada pela curiosidade, fui atrás. Escrevendo para Sigmund Freud, em 1927 (quase cem anos atrás), Romain Rolland usou a expressão para descrever a sensação de eternidade e de ser um com o mundo externo. Imagino que muito pensaram os dois, consigo vê-los em mesa de café, concordando/discordando, entre baforadas de um charuto aqui e ali. O desejo é viajar no tempo para fazer perguntas.

Por ser o que vivo e assisto, as tentativas humanas de sobreviver na multidão, tendo a me alinhar ao que Sigmund afinal concluiu: que o sentimento oceânico, uma unidade com o mundo, descreve a sensação que uma criança tem – antes de aprender que há outras pessoas no mundo.

Ah! Isto então! Uma busca de recuperar aquele instante onde ainda não havia a ameaça de não pertencimento, pois não havia a dúvida.

Desde o encontro com o “sentimento oceânico”, penso em possibilidades de recuperação consciente do sentimento oceânico como objetivo e não como fuga. Parece-me que preciso estar bem presente no presente, com minhas agonias contingenciadas e minha criança interna sossegada...

Foi uma lindeza de descoberta, dos tantos momentos nos quais este sentimento oceânico aconteceu. Fiz curadoria destes momentos. Uma delícia. Filhos, amores, amigos, música, imagens, céus, aromas, sabores, sensações... duas palavras que podem abrir caminho para fugir ou para buscar.

Para quem quiser ler a respeito: Freud termina O futuro de uma Ilusão com uma discussão do conceito e retoma a discussão no início de O mal-estar na civilização, respondendo ao pedido de Rolland. Lá, ele credita o conceito a um amigo anônimo, fazendo menção a Romain Rolland na nota de rodapé, conforme aparece na versão para o espanhol, publicada pela editora Amorrortu em 1994.

Última atualização
21/1/2024 17:06
Maku de Almeida
Analista transacional. Escreve aos domingos.

'Memórias de chá', novo livro do CIS, ganha vida com homenagens e relatos

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Jane Hir
20/4/2024 9:27

Já faz algum tempo (acredito que esse seja um presente do envelhecimento) que venho aprendendo a saborear os momentos vividos. É como se relesse com atenção uma parte da história que ainda estou construindo.

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Pateta no trânsito: reflexões sobre raiva e autocontrole

Controlar o 'Pateta interno' pode transformar sua condução

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20/4/2024 9:08

Na minha infância, lembro-me de assistir ao filme do Pateta no trânsito, uma animação da Disney na qual ele se transforma em uma pessoa raivosa ao dirigir. Aquela mudança de humor ao entrar em um carro me impressionava profundamente.

Agora, como adulta, vejo-me controlando meu Pateta interno e, em alguns momentos, percebo sua força crescer enquanto dirijo. Tendo consciência de quando ele domina, reconheço quão inadequado ele é.

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