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Opinião

A problemática digital no reduto dos dedos

A crescente preocupação com o vício em jogos online e apostas digitais, e seus impactos na saúde mental e desenvolvimento dos jovens.A crescente preocupação com o vício em jogos online e apostas digitais, e seus impactos na saúde mental e desenvolvimento dos jovens.
Arte Cidade Capital
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Adobe Firefly
Marta Moneo
25/1/2024 17:42

<span class="abre-texto">A evolução tecnológica propicia</span>, de modo surpreendente, o acesso a fartas e diversificadas realizações no campo das necessidades protetivas e de valorização, ora atendendo a urgências a nós inerentes, ora àquelas nem tanto.

E sobre estas, destaco as demandas vindas da intensa, fácil e acessível oferta ao envolvimento em jogos de entretenimento online, hábeis em capturar o sujeito à viciação, em especial a quem se encontra nas fases iniciais do desenvolvimento (biológico, psicoemocional, cognitivo e social) como a quem transita pela singular e vulnerável construção identitária no tempo de adolescer.

Ao pontuar aqui a questão das brincadeiras massivamente disponibilizadas em celulares, tablets, videogames e computadores, quero fazer um recorte muito específico: o universo dos jogos de apostas, de azar, bets esportivas e o que opera mediante pagamento à aquisição de itens a mudança de fases, geralmente via cartão de crédito.

Amparada por estratégias publicitárias envolvendo influenciadores e personalidades de diferentes segmentos, a indústria dos certames em rede, aparentemente esportivos ou lúdicos, cria e suscita desejos no indivíduo – os quais, ao serem retroalimentados por ganhos iniciais ou satisfações imediatas que elevam a autoconfiança, contaminam-se de um estado de dependência acionado pela liberação de altos níveis de um já bastante falado neurotransmissor: a dopamina.

Em excesso, tal substância atua no sistema de recompensa cerebral estimulando a excitabilidade e a compulsão à repetição, tanto quanto diminui o discernimento do sujeito sobre riscos.

“A dependência por apostas é semelhante à dependência química. O vício faz com que a pessoa coloque a vida em risco, pegando dinheiro emprestado com agiotas para apostar”, afirma Marcelo Palácio, da clínica terapêutica Casa Despertar, em Aquiraz-CE. Cita que pelo menos duas pessoas por dia chegam em busca de orientação para tratamento relacionado ao vício em apostas online. “Quando o jogador ganha, sente aquela dopamina, uma sensação de prazer parecida com a produzida pelo uso de entorpecentes. Quando perde, tem a mesma depressão e ressaca moral que a droga traz”, explica.

Em nosso complexo psíquico, o desejo eclode de experiências bem-sucedidas de satisfação, geradoras de sensações ou percepções agradáveis. E enveredando por circuitos mentais do sistema límbico (responsável pelo controle do comportamento emocional), em particular nos quintais do infantilizado Eu, tais desejos podem se transmutar em necessidades vitais ao resgate de autoestimas comprometidas pela dor, abandono, traumas, solidão e sentimentos de menos valia.

Na imensa maioria dos ambientes onde a juventude circula, confere-se a existência do aspecto viral de entretenimento online, em que muitos – mas, muitos mesmo! – veem-se literalmente enredados no vício, sofrendo (e fazendo familiares se afligirem junto) ao se perceberem incapazes em lidar com a angústia da abstinência e, ainda mais desesperadamente, não encontrando saídas a uma espécie de vergonha onde o arrependimento não faz qualquer diferença a sua apreensão.

Em entrevista a um programa televisivo, a vítima de um esquema de aposta denominado "Jogo do Tigre" desabafa:  "Eu comecei a jogar através de uma blogueira que eu seguia lá na minha cidade. Em 2 meses a mulher comprou um carro zero. Ai a gente fica deslumbrado...em 15 minutos, eu perdi meu salário todo. No segundo mês, perdi de novo o meu salário. O terceiro mês, eu perdi de novo. juntando os 3 salários e todo o dinheiro que eu perdi, uns 17 mil por aí. Eu prefiro nem contar, dá uma coisa ruim".

Ao não vivenciar mais as sensações sensoriais agradáveis durante o jogo (passar de fase sem gastar/ganhar dinheiro) e se sentir incapaz em quitar dívidas decorrentes de compras ou insucesso nas apostas – valores por vezes impagáveis –, o adicto digital pode, no processo antagônico ao estado afetivo de recompensa que é o de punição, presente no sistema límbico ante as experiências desagradáveis, recorrer a soluções desvirtuosas, como mentir e furtar, e a outras extremamente nefastas, listando aqui a drogadição, o trato com agiotas e o suicídio como tristes caminhos à paz interna que lhe escapou das mãos.

Derivado do latim TENERE (manter, segurar) e do espanhol ENTRETENER (segurar entre, manter entre), o termo entretenimento denota "uma ideia de estado em suspensão ou intermediário que, no extremo, transmitiria uma impressão de imobilidade, de estagnação, de quase paralisia". Revista Mídia e Cotidiano Editorial Volume 12, Número 2, agosto de 2018 ENTRETENIMENTO E VIDA COTIDIANA: NARRATIVAS E CONSUMO, Laura CÁNEPA e Tiago MONTEIRO.

Resta aqui uma consideração importante, para não proceder um juízo de valor generalizado sobre atividades que se propõem a promover o divertimento virtual; para tanto, retomo o que destaquei acima sobre os jogos de azar, como poker/cassinos digitais e os que vinculam o lazer/prazer a aquisição de itens, fomentando dívidas em um momento de imobilidade em discernir, de estagnação perante riscos, de quase paralisia em desligar-se de uma satisfação ilusória que compromete, sob todos os aspectos, a saúde e o futuro de quem mergulha psíquica e emocionalmente nesse mundo paralelo, tão perto das mãos, na pontinha dos dedos como no toque de quem tateia o seio materno para sorver dele o deleite, em sua sede por amor.

Essa nova modalidade de um brincar patológico tem se instalado despercebidamente nos espaços mentais da população juvenil e adulta, adentrando espaços de concreto e convívio... acomodando-se enquanto sistema de ‘entretenimento’ – extremamente rentável e para lá de perverso.

Finalizando: a prática de apostas esportivas online em plataformas de jogos (as denominadas bets) recebe, em 30/12/2023, sanção presidencial e vira a Lei 14.790/23 (Fonte: Agência Câmara de Notícias). A regulação, contudo, centra-se largamente em questões de mérito arrecadatório e de publicidade; ao que se refere à ponta mais frágil da relação de consumo, a proteção ao indivíduo se restringe a impedir o acesso de menores de 18 anos e de pessoas diagnosticadas com distúrbios de jogo – como essa indústria faz essa seleção efetiva, realmente ninguém sabe!

Última atualização
9/2/2024 13:38
Marta Moneo
Pós-graduada em A Psicanálise do Século XXI, pela Fundação Armando Alvares Penteado (Faap); Pós-graduada em psicanálise, pela Faculdade Álvares de Azevedo (Faatesp); Formação em psicanálise, pelo Centro de Formação em Psicanálise Clínica Illumen, com sede em São Paulo desde 2010. Outras formações acadêmicas: graduação em administração de empresas, pela Faculdade Ibero-Americana; graduação em letras, pelo Instituto Municipal de Ensino Superior (Imes) Catanduva; Leciona psicanálise, atua como analista didática e supervisora na preparação psicanalítica de alunos do Illumen. Atua na clínica psicanalítica desde 2017, com maior direcionamento ao público infanto-juvenil e adolescente.

'Memórias de chá', novo livro do CIS, ganha vida com homenagens e relatos

'Memórias de chá', novo livro do CIS, ganha vida com homenagens e relatos

Jane Hir
20/4/2024 9:27

Já faz algum tempo (acredito que esse seja um presente do envelhecimento) que venho aprendendo a saborear os momentos vividos. É como se relesse com atenção uma parte da história que ainda estou construindo.

Há duas semanas, escrevi sobre a apresentação do livro Memórias de chá, escrito pelas educandas do Centro de Integração Social (CIS). Nesse evento, uma cena se destaca entre as minhas lembranças: a diretora da unidade presta uma linda homenagem ao seu pai para representar, naquele momento, o leitor.

Pateta no trânsito: reflexões sobre raiva e autocontrole

Controlar o 'Pateta interno' pode transformar sua condução

Carolina Schmitz da Silva
20/4/2024 9:08

Na minha infância, lembro-me de assistir ao filme do Pateta no trânsito, uma animação da Disney na qual ele se transforma em uma pessoa raivosa ao dirigir. Aquela mudança de humor ao entrar em um carro me impressionava profundamente.

Agora, como adulta, vejo-me controlando meu Pateta interno e, em alguns momentos, percebo sua força crescer enquanto dirijo. Tendo consciência de quando ele domina, reconheço quão inadequado ele é.

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