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Opinião

A difícil tarefa de fazer escolhas, e de bancá-las

Explorando o conflito entre desejo e realidade, as escolhas humanas e o impacto da geração nem-nem.Explorando o conflito entre desejo e realidade, as escolhas humanas e o impacto da geração nem-nem.
Vinícius Sgarbe
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Adobe Firefly
Áurea Moneo
29/2/2024 16:35

<span class="abre-texto">Ser humano e bem resolvido consigo mesmo</span> não é para amadores. Afinal, vivemos num eterno conflito entre desejo e realidade, tendo que fazer escolhas o tempo todo, sem nenhuma garantia de que é a melhor dentre tantas outras. Aliás, muitas vezes adiamos este momento de decisão, até o limite, iludidos de que podemos simplesmente não fazer nada a respeito, como se a não escolha também não fosse uma escolha!

Pois é, e não basta escolher por escolher, pois isso também não nos satisfaz e, com o agravante de vir a gerar sofrimentos, os quais, boa parte das vezes, sequer associamos a alguma escolha tomada de maneira irrefletida ou inconsequente.

Seguimos sem certezas, diante do inevitável momento que se aproxima, descortinando possibilidades inúmeras de prazer ou de redução do desprazer, sem garantia alguma de plena satisfação, até porque isso não é da natureza do homem. O famoso ego cindido mencionado por Freud, que não é senhor em sua própria morada, sempre experimentando uma falta, em busca de uma saciedade que nunca se completa, mas que o move incessantemente.

Acrescenta-se aqui outro ingrediente importante que só amplia este desconforto: a constante comparação, hoje muito mais intensa, proporcional à visibilidade que acreditamos ter dos outros, claramente ilusória, pois tendemos a enxergar, com nossas lentes da escassez, a pujança no quintal do vizinho, o que torna nossa grama menos verdinha e, consequentemente, nossa vida mais desinteressante e desanimadora.

Assim, ter que escolher vira um drama, gera ansiedade e uma única certeza se descortina: ao escolher algo, deixo de lado outras tantas possibilidades, o que só amplia minha vontade de adiar o momento de decidir.

Não à toa convivemos hoje com novos padrões de comportamento, caso da geração nem-nem, que vem crescendo nos últimos tempos e, em 2023, segundo o IBGE, já representava quase 11 milhões de jovens só no Brasil, um em cada cinco jovens entre 15 e 29 anos.

É claro que parte significativa deste grupo está nesta situação não por vontade própria, mas por falta de oportunidades, em especial os mais vulneráveis, pertencentes a classes sociais menos favorecidas, com dificuldades em dar continuidade aos estudos e de ingressar no mercado de trabalho, o que afeta significativamente a capacidade de escolha e, consequentemente, a autoestima, alijados que estão de uma vida mais digna, a constituir um sério problema social que precisa ser enfrentado.

Mas é no consultório que percebemos uma fração não desprezível deste grupo, de classe mais privilegiada e que, deliberadamente, escolhe ficar neste lugar, adiando o momento de assumir compromissos compatíveis com maior grau de maturidade.

Uma escolha, no mínimo, equivocada e que, certamente, trará consequências. Esta fração se aproxima de outra geração, típica da pós-modernidade, batizada como canguru, que abarca, na grande maioria, privilegiados jovens que optam por estender a estadia na casa dos pais, adiando o momento de assumir compromissos considerados adultos, relativos à própria sobrevivência.

Alguns até aproveitam a oportunidade para seguir nos estudos, outros se abandonam no princípio do prazer, vivendo num ócio interminável (geração canguru que claramente descambou para a geração nem-nem, para se eximir de responsabilidades típicas de adultos, numa eterna adolescência).

Em ambos, observa-se o retardo de escolhas adultas, para não ter que arcar com certas despesas que poderiam comprometer parte significativa da renda e prejudicar o padrão de vida que sempre gozaram. Mas o preço pago pode ser uma sensação de vazio por não conseguir viver mais plenamente um momento ímpar da vida.

Há ainda um novo grupo, que busca definir o atual status dos relacionamentos amorosos interpessoais, denominado “situationship”, em substituição ao tradicional “relationship”, onde o compromisso não se estabelece de forma clara, num passo intermediário entre o “ficar” e o “namorar”.

Lembrando, escolher significa se implicar, algo que nem sempre estamos preparados para fazer. E, sem a intenção de criticar, compreender este momento de indefinições, para lidar melhor com ele, pode ser uma estratégia interessante, desde que entendido dessa maneira.

Portanto, como sair deste círculo vicioso? Sempre iremos desejar mais do que podemos ter, como nos revela a frase de um publicitário famoso: “Ganho mais do que preciso e menos do que mereço!”.

E há também o fenômeno da intrínseca insatisfação latente, característica do humano, a nos impulsionar para a busca de uma completude que não combina com a natureza conflitiva que nos constitui. Mas se isto é motivo de angústia, é também sinal de estímulo para continuidade da jornada.

Seguimos incompletos, mas buscando dar um sentido à vida, o que fazemos via escolhas: um novo emprego, uma capacitação, alguém para compartilhar sonhos, um simples passeio no fim de semana e por aí vai.

Vale então pensar em elencar aquilo que escolho e consigo bancar, pois me é importante para a construção da minha maturidade, rumo a uma independência relativa e aquilo que, ainda instigante, antevejo que não darei conta e, portanto, melhor declinar, ao invés de adiar ou repetir de forma inconsequente, o que requer um certo conhecimento de si mesmo.

Uma boa análise leva o sujeito a estas constatações, a partir de suas próprias experiências e expectativas em relação à vida, com um relativo distanciamento das idealizações que ele assimilou por anos a fio, mas que são ilusórias, inatingíveis, abrindo sua percepção num movimento contrário, que o leve em direção a si mesmo, ao que deseja de fato, de encontro com seus ideais, ao que faz a diferença, dá sentido, tempera a existência e vale a pena bancar!

Última atualização
29/2/2024 16:35
Áurea Moneo
Pós-graduada em A Psicanálise do Século XXI, pela Fundação Armando Alvares Penteado (Faap); pós-graduada em Psicanálise, pela Faculdade Álvares de Azevedo (Faatesp); Formação em Psicanálise, pelo Instituto Superior de Psicanálise de Brasília. Outras formações acadêmicas: pós-graduada em Marketing, pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM); pós-graduada em Administração, pela Fundação Getulio Vargas de São Paulo; graduada em Arquitetura, pelo Mackenzie. Responsável pela gestão organizacional e pedagógica do Centro de Formação em Psicanálise Clínica – Illumen, com sede em São Paulo, desde 2010. Leciona Psicanálise, com notória especialidade, responsável pela preparação psicanalítica de novos alunos e professores do Illumen. Atua na clínica psicanalítica desde 2001.

'Memórias de chá', novo livro do CIS, ganha vida com homenagens e relatos

'Memórias de chá', novo livro do CIS, ganha vida com homenagens e relatos

Jane Hir
20/4/2024 9:27

Já faz algum tempo (acredito que esse seja um presente do envelhecimento) que venho aprendendo a saborear os momentos vividos. É como se relesse com atenção uma parte da história que ainda estou construindo.

Há duas semanas, escrevi sobre a apresentação do livro Memórias de chá, escrito pelas educandas do Centro de Integração Social (CIS). Nesse evento, uma cena se destaca entre as minhas lembranças: a diretora da unidade presta uma linda homenagem ao seu pai para representar, naquele momento, o leitor.

Pateta no trânsito: reflexões sobre raiva e autocontrole

Controlar o 'Pateta interno' pode transformar sua condução

Carolina Schmitz da Silva
20/4/2024 9:08

Na minha infância, lembro-me de assistir ao filme do Pateta no trânsito, uma animação da Disney na qual ele se transforma em uma pessoa raivosa ao dirigir. Aquela mudança de humor ao entrar em um carro me impressionava profundamente.

Agora, como adulta, vejo-me controlando meu Pateta interno e, em alguns momentos, percebo sua força crescer enquanto dirijo. Tendo consciência de quando ele domina, reconheço quão inadequado ele é.

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